Desde muito cedo que Carolina Pereira aprendeu que o tatami seria mais do que um espaço de treino. Tornou-se um lugar de crescimento, confronto e identidade. Atleta de Karaté, com títulos nacionais, presença na Seleção e atualmente no top 3 do ranking nacional da sua categoria, Carolina viu a sua carreira cruzar-se com um diagnóstico exigente: esclerose múltipla. Nesta entrevista, partilha o seu percurso com frontalidade, mantendo intacta a paixão pela modalidade e a ambição de continuar a competir ao mais alto nível.
FightNews: Como e quando o karaté entrou na sua vida?
O karaté entrou na minha vida muito cedo. Comecei a praticar aos 3 anos, influenciada pelo meu pai, que é treinador. Assim que teve oportunidade, inscreveu-me a mim e à minha irmã. Rapidamente desenvolvi um grande gosto pela modalidade e, desde então, o karaté tornou-se uma parte essencial da minha vida. Pratico até hoje e espero continuar a fazê-lo por muitos e muitos anos.
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FightNews: Em que fase sentiu que o karaté deixou de ser apenas treino e passou a ser competição de alto rendimento?
Por volta dos meus 10 anos comecei a perceber essa mudança. Cresci num ambiente muito ligado ao karaté, sempre a ouvir o meu pai falar dos seus combates e a ver tanto ele como os meus colegas a competir. Quando comecei a ter acesso à internet, descobri muitos combates da atleta ucraniana Anzhelika Terliuga, que rapidamente se tornou uma grande inspiração para mim. Via nela uma role model — admirava a qualidade técnica, a atitude e, sobretudo, a felicidade com que ela competia. Isso despertou em mim uma vontade enorme de seguir o mesmo caminho e de entrar no tatami com a mesma paixão e determinação.
Imagem cedida Carolina Pereira
FightNews: Ao longo do seu percurso conquistou títulos nacionais, pódios consistentes e integrou a Seleção. Que momentos ou conquistas considera estruturantes na sua carreira enquanto atleta?
Sem dúvida, um dos momentos mais marcantes da minha carreira foi conquistar o meu primeiro título de campeã nacional, em 2019, quando tinha 16 anos. Nessa fase sentia-me bastante insegura em relação ao meu percurso, porque acreditava que o meu valor enquanto atleta estava a ser subestimado. O facto de o meu pai ser, na altura, diretor da Seleção Nacional fazia com que muitas pessoas insinuassem que as minhas convocatórias se deviam apenas a essa ligação.
Essa vitória teve, por isso, um significado especial: permitiu-me provar, não só aos outros, mas sobretudo a mim mesma, que o meu lugar na Seleção se deve exclusivamente à minha qualidade e ao meu trabalho. Foi um marco que reforçou a minha confiança e consolidou a certeza de que estou onde mereço estar.
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FightNews: Atualmente integra o top 3 do ranking nacional da sua categoria. Que objetivos competitivos tem a curto e médio prazo? O que ainda ambiciona alcançar no karaté?
Neste momento, o meu principal objetivo é voltar a competir internacionalmente. Tenho muitas saudades desse ambiente. Lá fora, a intensidade é completamente diferente e o nível competitivo é muito mais elevado do que em Portugal. Isso motiva-me imenso, porque cada combate é uma verdadeira batalha e cada vitória significa superar atletas de enorme qualidade. Sinto falta dessa adrenalina e desse desafio constante.
A médio prazo, tenho um sonho que sei que será muito difícil de alcançar, mas que guardo com muita determinação: conquistar uma medalha numa K1 Premier League nos próximos três anos. Para mim, atingir esse objetivo seria um marco extraordinário. Acredito que me traria uma sensação de leveza e de realização profunda, fazendo-me sentir verdadeiramente concretizada enquanto atleta.
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FightNews: Há cerca de dois anos recebeu o diagnóstico de esclerose múltipla. Em que momento percebeu que essa realidade iria inevitavelmente cruzar-se com a sua carreira desportiva?
Curiosamente, o meu primeiro sintoma surgiu precisamente durante uma prova de karaté, quando deixei de ver pelo olho esquerdo. Algumas semanas depois, chegou o diagnóstico de esclerose múltipla. No início, como não conhecia bem a doença, não fiquei muito preocupada. Mas tudo mudou quando voltei aos treinos após os tratamentos: senti uma diferença enorme, sobretudo no controlo da fadiga.
É normal cansarmo-nos durante o treino, mas no meu caso o cansaço, naquela fase inicial, desencadeava pânico, porque para mim significava que poderia voltar a perder a visão. Percebi aí, de forma muito real, que esta condição iria inevitavelmente ter impacto na minha vida desportiva.
Foi um processo difícil de adaptação, mas tive a sorte de contar com um apoio enorme: os meus colegas de treino, os meus treinadores, a minha família e o meu namorado estiveram sempre ao meu lado. Graças a eles, todo este caminho se tornou muito mais leve e suportável.
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FightNews: Em algum momento lhe foi sugerido, direta ou indiretamente, que deixasse de competir? Como lidou com essa pressão externa num desporto de alto rendimento?
Diretamente, nunca me disseram para deixar de competir, mas ouvi várias frases como: “A tua vida já não vai ser como era”, “Tens a certeza de que queres continuar?” ou “Agora tens de ter mais cuidado por causa da tua saúde”. Sei que essas palavras nunca tiveram a intenção de me desmotivar, mas sim de me proteger. Ainda assim, há algo de que se fala pouco: as pessoas com doenças crónicas normalmente detestam sentir-se tratadas como “doentes”. E, por mais boa fé que houvesse, esses comentários deixavam-me desconfortável.
Além disso, a internet pode ser um lugar assustador. Ver pessoas com a mesma doença em cadeiras de rodas ou com membros paralisados faz-nos inevitavelmente pensar: “E se um dia for eu?”. Isso cria uma dúvida interna enorme sobre até que ponto podemos continuar a competir ou até onde o nosso corpo nos vai permitir ir. Esse confronto com o pior cenário possível mexe muito com a nossa cabeça.
Tal como aconteceu em 2019, quando diziam que eu só chegava a determinado nível por causa do meu pai, tento transformar todas essas pressões — externas e internas — em motivação. Em vez de me deitarem abaixo, fazem-me querer mostrar que sou mais do que aquilo que os outros esperam e, sobretudo, mais do que um diagnóstico. Uso essas palavras e esses medos como combustível para continuar a evoluir e provar, principalmente a mim mesma, que o meu valor está no meu trabalho, na minha dedicação e na minha resiliência.
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FightNews: Manteve-se no topo do ranking nacional após o diagnóstico. O que foi mais difícil: adaptar o corpo à doença ou a mente à nova realidade?
Diria que ambos foram desafiantes, cada um à sua maneira. A nível físico, o meu corpo teve de passar por uma grande adaptação. Precisei de aprender a gerir muito melhor a fadiga e a força. Felizmente, tive a sorte de contar com treinadores que se empenharam em estudar e compreender a minha condição, ajustando os treinos para que fossem seguros e eficazes. Esse cuidado tornou todo o processo bastante mais fácil.
Mas a parte mental foi, sem dúvida, a mais difícil. Tive de aprender a lidar com a ansiedade que surgiu após o diagnóstico. Não era apenas o medo de ficar sem ver — eu perdia mesmo a visão. Essa realidade era aterrorizadora, especialmente quando acontecia durante treinos ou combates. Não é fácil prepararmo-nos mentalmente para competir quando sabemos que, a qualquer momento, a visão pode desaparecer. Isso provocou muitos ataques de pânico e tornou o início desta nova fase extremamente difícil.
Ainda hoje é um processo em construção. Não existe uma solução rápida ou uma estratégia infalível para lidar com este tipo de ansiedade. É algo que se vai trabalhando com o tempo, à medida que nos vamos habituando às situações e aprendendo a gerir o corpo e as emoções. Pouco a pouco, tenho ganho mais confiança e controlo, o que me permite continuar a competir ao meu melhor nível.
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FightNews: Qual é a diferença, para si, entre empatia verdadeira e um olhar que reduz o atleta à doença? Sente que os atletas com doenças crónicas são suficientemente compreendidos e apoiados em Portugal?
A verdadeira empatia acontece quando as pessoas nos apoiam sem nos diminuírem, quando perguntam do que precisamos e respeitam o nosso ritmo, em vez de assumirem automaticamente que não conseguimos. Reduzir o atleta à doença é olhar para nós e ver apenas limitações, quando, na verdade, temos objetivos, ambição e capacidade como qualquer outro atleta.
Quanto ao apoio em Portugal, acho que ainda não existe uma compreensão real do que é ser atleta com uma doença crónica. Há boa vontade, mas falta conhecimento e faltam estruturas preparadas. Muitas vezes, cabe ao próprio atleta explicar, justificar e adaptar tudo sozinho. Sinto que falta formação, falta sensibilidade e falta espaço para que atletas como eu sejam vistos não como uma exceção, mas como parte do desporto de alto rendimento.
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FightNews: Quando sobe ao tatami hoje, o que é que a move?
Eu amo o karaté profundamente e sinto-me completamente diferente quando estou no tatami: mais leve, mais confiante, mais presente. É um espaço onde me permito ser a melhor versão de mim mesma, e é algo que recuso perder.
O karaté faz parte da minha vida desde que me lembro. Todo o percurso, com altos e baixos, conquistas e derrotas, moldou quem sou hoje. Mesmo depois de todos estes anos, sei que ainda não alcancei o meu potencial máximo. O que me move é a vontade de provar a mim mesma que nada — nem uma doença, nem qualquer obstáculo — me pode impedir de alcançar os meus objetivos.
FightNews: Que mensagem considera importante deixar a outras pessoas que enfrentam diagnósticos difíceis e são incentivadas a desistir?
Diria para não se definirem pelo diagnóstico. Ele não deve condicionar tudo o que fazemos ou deixamos de fazer na vida. Somos muito mais do que uma doença, e a nossa vida merece ser vivida ao máximo.
O meu maior medo é ter arrependimentos: arrepender-me de não ter feito algo por causa da minha doença ou de ter receio de me expor por pensar que poderia piorar. Sei que é possível que certas escolhas tragam desafios, mas, mesmo assim, não me arrependeria, porque estaria a viver a minha vida da melhor forma possível.
A minha mensagem é simples: não tenham medo. Não deixem que nada vos impeça de viver. Aproveitem cada momento, porque só temos uma vida.