Fight News International MILTINHO VIEIRA
Pride, UFC, Rio Fighters e MOVE Grappling: a carreira vitoriosa de Miltinho Vieira
O fundador da Rio Fighters e Head Coach do evento MOVE Grappling revisita o início humilde, as rivalidades históricas e o impacto das maiores organizações mundiais.
10/12/2025 19h11 Atualizada há 6 meses
Por: Redação Fonte: Redação Fight News
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Miltinho Vieira: “A minha ida para a Carlson Gracie mudou a minha vida”

 

Considerado um dos grandes nomes da história da Luta LivreJiu-Jitsu e do MMA brasileiro, Miltinho Vieira acumulou experiência nos maiores palcos do mundo — PRIDE, UFC, Strikeforce e M-1 Global. Hoje, lidera a equipa Rio Fighters, uma das grandes academias do Rio de Janeiro, e é o responsável pelo MOVE Grappling, competição que rapidamente ganhou destaque nacional. Nesta entrevista especial a Fight News Portugal, o ex lutador e atualmente treinador e empresário, revisita o seu percurso, fala da rivalidade histórica entre modalidades, comenta o crescimento do desporto em Portugal e revela os próximos passos do MOVE.

FightNews: Miltinho, conta-nos um pouco sobre o teu início nos desportos de combate. Como começou e como era aquele momento?

Miltinho Vieira: O meu início nas artes marciais aconteceu muito cedo. Muita gente acredita que comecei directamente na luta de chão, mas, na verdade, o meu primeiro contacto foi com a capoeira ainda em criança. Logo depois veio o Muay Thai, muito por incentivo do meu tio, que já praticava.

Mas foi por conta própria, um pouco mais velho, que dei os meus primeiros passos no caminho que me acompanharia para sempre. Aos 13 e 14 anos, comecei na Luta Livre Esportiva. Nessa altura já “brincava” de Jiu-Jitsu com os meus amigos, treinando no carpete de casa ou em qualquer espaço que desse. Então, quando entrei na Luta Livre, já tinha alguma noção de movimentos e acabei por adaptar-me muito rápido.

Era uma época em que o desporto não tinha visibilidade, nem financeira nem competitiva. Eu morava em Vila Isabel, na Zona Norte do Rio, e o Jiu-Jitsu quase não chegava lá. Existiam raríssimas academias — lembro-me de uma ou duas no bairro inteiro. Por isso, a minha entrada na Luta Livre Esportiva, de facto como aluno, aconteceu muito porque a academia ficava perto da minha casa e eu precisava muito de aprender a defender-me, já que cresci num tempo em que gangs e brigas de rua eram muito normais.

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FightNews: Durante muito tempo foste atleta de Luta Livre e depois fizeste a transição para o Jiu-Jitsu. Isso aconteceu numa época de grande rivalidade entre as modalidades. Como foi essa mudança para ti?

Miltinho Vieira: A minha base sempre foi a Luta Livre esportiva. E, naquela época, a rivalidade com o Jiu-Jitsu era realmente muito forte. Só que tive a sorte de ser formado por um mestre muito à frente do seu tempo: o mestre Jefferson Oliveira Pereira.

Ele nunca alimentou essa divisão. Pelo contrário — nunca nos proibiu de treinar Jiu-Jitsu. Desde o início, cresci dentro de um ambiente onde as duas artes conviviam. Priorizei sempre a Luta Livre, claro — era a minha casa, o meu estilo, a minha raiz. Mas treinei Jiu-Jitsu paralelamente.

A academia do mestre Jefferson, na Adolfo Mota, na Tijuca, era provavelmente a única de Luta Livre Esportiva no Rio que também oferecia Jiu-Jitsu no quadro de actividades. Isso deu-me a oportunidade de evoluir nas duas artes ao mesmo tempo.

Quando chegou o momento da minha transição para o MMA — que na época ainda era chamado de Vale Tudo — tive portas abertas em todas as academias de Jiu-Jitsu por onde passei. Essa convivência desde cedo foi fundamental para o meu desenvolvimento técnico e para uma relação saudável com ambas as artes.

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FightNews: Quais foram os maiores desafios ao integrares-te no mundo do Jiu-Jitsu, considerando a rivalidade histórica?

Miltinho Vieira: Eu realmente nunca tive problemas na convivência dentro das academias de Jiu-Jitsu ao longo da minha carreira. Isso passa muito pelo ambiente em que cresci. O meu mestre sempre abriu portas e tinha relações de muito respeito com grandes nomes da arte.

Quando chegava a uma academia e demonstrava a técnica que ele nos ensinava, as pessoas logo perguntavam: “Treinas com quem?” E quando a resposta era “mestre JOP”, o respeito vinha automaticamente.

Além disso, quando chegas com conteúdo técnico, para aprender e para somar, és bem recebido em qualquer tatami.

Nunca tive problemas com o Jiu-Jitsu. Caminhei entre as duas artes desde o início, e essa convivência acompanhou-me a vida inteira.

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FightNews: Treinaste na tradicional equipa Carlson Gracie Jiu-Jitsu. Que memórias guardas dessa época?

Miltinho Vieira: A minha ida para a equipa Carlson Gracie mudou completamente a minha vida. Um amigo de Vila Isabel, que já treinava lá, comentou com o mestre que eu era bom de briga — e naquela altura eu estava muito envolvido em confusões, brigas em bailes funk, a viver um caminho errado.

Ele levou-me para treinar e, logo no primeiro dia, entrei directamente na maior academia de Vale Tudo do Brasil, a casa dos campeões. Lá treinavam Vitor Belfort, Murilo Bustamante, Zé Mário Sperry… o topo do topo.

No meu primeiro treino dei tudo o que tinha. A equipa ficou impressionada, e quando terminou, o próprio mestre Carlson Gracie abraçou-me e disse que eu seria um fenómeno, que tinha nascido para lutar.

Aquilo mudou a minha vida. Voltei para casa decidido, falei com o meu pai e disse que queria mudar de vida e focar no desporto. Larguei o caminho errado e entrei de cabeça na luta.

Foi ali que tudo começou — e ali entendi o meu caminho.

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FightNews: Participaste em organizações de renome mundial como PRIDE, UFC, Strikeforce e M-1 Global. Quais foram os maiores aprendizados?

Miltinho Vieira: Para mim, cada grande evento internacional em que lutei foi uma realização. Hoje entendo que cada palco foi resultado de anos de foco, preparação e visualização.

Mais do que as vitórias, o que mais marcou foi o conhecimento adquirido: viajar, conhecer culturas diferentes, treinar com atletas do mundo inteiro. Isso somou directamente para o mestre e professor que sou hoje, para liderar uma academia com mais de 300 alunos.

Fiz amigos em vários países, muitos dos quais mantenho até hoje. E é especial receber na minha academia pessoas que já me receberam no exterior.

Cada experiência moldou quem sou dentro e fora do tatami.

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FightNews: Qual consideras ter sido a tua luta mais difícil?

Miltinho Vieira: A verdade é que nunca tive luta fácil. Nada veio pronto, nunca houve atalhos. As oportunidades surgiam na última hora, com adversários duros, condições complicadas.

Por isso, quando me perguntam qual foi a luta mais difícil, não consigo escolher. Cada combate, vitória ou derrota, exigiu tudo de mim.

As minhas batalhas foram muitas — e todas pesadas. Mas justamente por isso, as vitórias tiveram um sabor especial.

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FightNews: Como surgiu a ideia de fundar a Rio Fighters e qual o objetivo da equipa hoje?

Miltinho Vieira: A Rio Fighters sempre foi um sonho antigo, algo que eu já desenhava no caderno da escola. E o mais incrível é que a academia que existe hoje é exactamente aquela que imaginava.

Quando comecei, ninguém ganhava dinheiro a competir. Ser campeão não significava ter carreira. O máximo que alguém podia sonhar era dar aulas — e esse sempre foi o meu sonho.

Hoje vivo esse propósito há 13 anos: formar pessoas, construir comunidade e gerar impacto positivo.

A Rio Fighters tornou-se uma família, uma egrégora do bem. E isso é fruto de entrega, verdade e propósito.

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FightNews: Quais são os maiores desafios como treinador e líder da Rio Fighters?

Miltinho Vieira: Aprendi muito ao trabalhar com atletas de alto rendimento. Formei campeões, viajei o mundo com eles.

Mas chegou o momento em que percebi que gerir carreiras profissionais não fazia mais sentido para o futuro da academia. Era um trabalho duro, com pouco retorno e muita dor de cabeça.

Escolhi seguir o caminho que gera propósito, paz e prosperidade. Hoje, a Rio Fighters é focada no público comercial. Continuo a treinar atletas profissionais que me procuram, mas não assumo mais gestão de carreira.

Temos, sim, um time de competição — agora totalmente focado no grappling. Daí nasce o MOVE Grappling.

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FightNews: O que conheces do cenário das artes marciais em Portugal? Tens ligação com atletas portugueses?

Miltinho Vieira: Sinceramente, nunca tive muito contacto directo com o cenário de artes marciais em Portugal. A rotina no Rio sempre foi intensa.

Mas, nos últimos tempos, por causa do Fight News Portugal, comecei a acompanhar mais. Tenho visto entrevistas, matérias, conteúdos — e tenho gostado muito. O cenário está a crescer, a ganhar voz.

Hoje sinto-me mais conectado e consciente do que acontece aí.

Imagem cedida Miltinho Vieira

FightNews: A segunda edição do MOVE Grappling correspondeu às expectativas? Houve avanço significativo?

Miltinho Vieira: A segunda edição do MOVE Grappling, realizada no dia 22 de novembro, foi simplesmente espectacular. A primeira edição já tinha sido muito forte, então superar aquela energia era uma missão enorme. Mas conseguimos — e com sobras.

O evento deu um salto:
– o nível técnico das lutas aumentou
– a adrenalina foi absurda
– a experiência para o público e atletas subiu de patamar
– estrutura, transmissão e ambiente evoluíram

O feedback foi unânime: o MOVE tornou-se referência.

Imagem cedida Miltinho Vieira

FightNews: Quais são os próximos passos para o MOVE Grappling?

Miltinho Vieira: O MOVE Grappling nasceu para crescer. É um projecto criado com visão de expansão e com essência clara: conectar e transformar.

A ideia é manter o formato que conquistou o público — arena intimista, altíssima qualidade presencial e produto online preparado para o mundo.

Para a terceira edição teremos novidades:
– transmissão bilingue
– novas surpresas no card
– presença ainda mais forte no cenário do grappling

O MOVE está só no começo. Quem acompanha agora não perde pelo que vem aí.

Imagem cedida Miltinho Vieira

FightNews: Por fim, que conselhos darias aos atletas portugueses que querem crescer no MMA, Jiu-Jitsu ou Luta Livre?

Miltinho Vieira: O meu conselho é simples: perseverem. Acreditem no sonho e no vosso potencial.

Dedicação e propósito são fundamentais. Mas tão importante quanto isso é ser uma pessoa boa — com o próximo, com o mundo e com o ambiente à vossa volta. Essa energia volta.

Sejam correctos, façam o bem, trabalhem com verdade. O caminho abre-se.

Imagem cedida Miltinho Vieira