Após alguns anos de interrupção, o Odivelas Box Cup volta ao calendário competitivo em 2025. Considerado um torneio pioneiro no desenvolvimento do Boxe internacional em Portugal, o evento regressa com um novo posicionamento: focado exclusivamente em atletas de elite e no confronto direto entre atletas de seleções nacionais.
Em entrevista, o promotor do Odivelas Box Cup, Bruno Carvalho, explica os motivos do regresso, os desafios que enfrenta nos bastidores e a ambição de elevar Portugal no panorama do Boxe olímpico mundial.
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FightNews: Depois de alguns anos desde a última edição, o Odivelas Box Cup regressa. O que tornou este o momento certo para trazer o torneio de volta ao calendário competitivo?
Retomamos o Odivelas Box Cup este ano porque, após a última edição, que foi em 2019, realmente aconteceu a pandemia e o pavilhão ficou como centro de vacinação. Os demais anos entretanto também não tivemos a data no calendário, visto que outras organizações faziam outros eventos na nossa data.
Este ano conseguimos ficar com a nossa data e decidimos realizar novamente. Vamos para a oitava edição de um torneio que é pioneiro nos Boxe Cup em Portugal e que irá fazer o seu trabalho, como sempre fez até aqui, que é a divulgação do Boxe nacional e a competição contra atletas internacionais, que é o que nós precisamos. Muito devido ao nosso campeonato não ser muito competitivo, nós precisamos de muita competição e experiência internacional — e este torneio serve para isso.
Este ano decidimos fazer um upgrade. Visto que já existem mais torneios com este formato, decidimos fazer um formato só elite, top elite, que privilegiasse os atletas elite e a própria seleção. Agora precisamos de ter um torneio top elite de seleções. Este passo dos clubes internacionais já foi conseguido, mas agora precisamos deste passo de seleções, porque ainda estamos com algumas dificuldades no confronto entre seleções. E devido a isso é que fizemos o torneio este ano nesse formato.
FightNews: Como definiria a identidade do Odivelas Box Cup dentro do panorama do boxe olímpico europeu?
Acabei por responder um bocadinho a esta pergunta na pergunta anterior. Eu quero colocar o Odivelas Box Cup numa plataforma de competição internacional de seleções, focada nos elite e no progresso da nossa própria seleção contra as outras. Neste momento, acho que esse é o passo que nos falta.
No formato de clubes internacionais estamos bem, já conseguimos competir contra eles. Quando fiz o Odivelas na primeira vez não tínhamos isso, não existia. Acho que agora é preciso dar o próximo passo. Acredito que este ano ainda não vamos conseguir fazer tudo como queremos, mas no próximo ano queremos fazer um torneio mais largo, mais comprido em dias e só focado nas seleções.
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FightNews: Quais são os principais objetivos desta edição, tanto no plano competitivo como no desenvolvimento do boxe português?
O principal objetivo deste Odivelas Box Cup é tentar replicar em Odivelas o que tenho vivido nos apuramentos olímpicos e nos Jogos Olímpicos. Gostava que Odivelas tivesse, a nível competitivo, um leque de atletas elite de grande carreira internacional.
Vamos trazer alguns dos melhores atletas da Europa, mas mais importante do que isso, gostava que o nosso torneio enchesse. Gostava que tivesse muito público, e por isso fizemos entrada livre — queremos que isto esteja cheio e que seja uma festa.
A ideia é proporcionar um verdadeiro espetáculo, onde os protagonistas são os atletas. Portugal estará representado pela seleção e isto é um desenvolvimento brutal para os nossos atletas, porque além de poderem competir em casa contra seleções estrangeiras, acabam por sentir o ambiente de um grande evento internacional.
FightNews: O torneio recebe atletas de 10 países. O que este nível de internacionalização representa para a modalidade em Portugal?
Vamos competir contra atletas de 10 nações, vindas de três continentes — Europa, Ásia e África. É uma mais-valia para o torneio e para os nossos atletas. Esta troca de experiências, contra atletas que interpretam o Boxe de outra forma, vai valorizar imenso os nossos atletas e reforça a nossa aprendizagem e evolução. Precisamos de variedade competitiva para preparar os atletas para o próximo ciclo olímpico.
FightNews: A bicampeã olímpica Kellie Harrington é uma das grandes figuras confirmadas. Que impacto tem a presença dela e de outros atletas olímpicos?
A presença da Kellie Harrington é uma grande satisfação e uma grande honra. Para nós, é um motivo de confiança ela vir ao nosso torneio. Acredito que, após Paris, ela tenha parado, e que esteja a retomar a carreira internacional no nosso torneio. Para nós é um orgulho recebê-la.
Ela, sendo bicampeã olímpica e um ícone do Boxe feminino, dá enorme valor ao evento, a Portugal e aos nossos atletas, que poderão competir contra ela ou observá-la e perceber o que ainda falta para chegar ao mesmo nível.
Queremos três dias de Boxe ao mais alto nível, em espírito de fair play e alegria. O Boxe tem de ser diversão e superação.
FightNews: Qual é a principal dificuldade de organizar um evento deste porte, e o que não se vê nos bastidores?
A maior dificuldade é o país em si. Portugal é um país de futebol: governantes, patrocinadores e público só olham para o futebol. O Boxe não tem espaço, nem antena, nem investimento.
Mas não posso queixar-me da Câmara de Odivelas. É uma câmara com visão e sempre me apoiou na execução do Odivelas Box Cup. São um parceiro fundamental e ideal. Estou muito feliz com a parceria.
Tudo o resto é muito difícil porque Portugal não tem grande carinho pela modalidade. O nosso trabalho é tentar chegar ao maior número de pessoas possível. Por isso investimos em streaming online, entrada livre, passagem do evento na televisão e até publicidade nas escolas — queremos que os jovens vejam Boxe, que tenham acesso a modalidade
FightNews: Como avalia o momento atual do boxe olímpico português?
Acredito que está como nunca esteve. Nunca tínhamos participado em tantos campeonatos e competições. Estamos no caminho certo, mas ainda temos muito trabalho pela frente.
A nova direção da federação tem trabalhado muito bem. Temos seis eventos internacionais por ano e participamos em quase todas as provas possíveis, apesar de pouco apoio governamental.
Conquistámos medalhas inéditas em Sub-23 e boxe infantil, participámos em Mundiais e Europeus, e estamos a construir a base da nossa equipa nacional. Estamos a cumprir com as nossas obrigações e dar volume competitivo aos nossos atletas. Portugal está a fazer um brilhante trabalho, mas temos que trabalhar muito mais. O grande objetivo é apurar, pela primeira vez, pelo menos um atleta diretamente para os Jogos Olímpicos.
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FightNews: De que forma o Odivelas Box Cup pode ser um catalisador para jovens talentos? E estes eventos ajudam a profissionalizar o ecossistema da modalidade?
Com o formato atual, o Odivelas Box Cup não será mais um torneio para desenvolvimento de jovens valores. Será um torneio final, de aprimoramento das capacidades e resultadista — um torneio só para elite e seleções.
Mas hoje temos 5 ou 6 torneios internacionais de clubes em Portugal onde se desenvolvem todos os escalões — infantis, cadetes, juniores e elite. Isto nunca existiu.
Um atleta hoje pode fazer 20 a 25 combates por ano, o que antes era impossível. Agora depende dos clubes trabalharem e competirem em todas as provas. O Odivelas será sempre o torneio terminal, o último estágio antes dos grandes objetivos internacionais.
FightNew: Qual é o legado que deseja consolidar com este torneio nos próximos anos?
Gostava que o Odivelas Box Cup fosse pioneiro não só no boxe internacional de clubes, mas agora também como ícone de um torneio internacional de seleções. É este o passo que queremos dar: tornar o Odivelas um torneio marcante na Europa a nível de seleções.
Esse será o legado — um torneio que revolucionou o Boxe em Portugal e deu visibilidade aos nossos atletas e ao país.
FightNews: Por fim, o que esperar da edição de 2025? Que mensagem deixa aos participantes e ao público?
Esperamos um grande espetáculo desportivo, onde o Boxe é a modalidade central. Quero que os atletas sejam os grandes protagonistas, que tudo gire à volta deles.
Desejo uma arbitragem justa, que toda a gente saia contente, saudável e com alegria. O Boxe é um desporto nobre. Gostava que fosse um espetáculo verdadeiro, que corresse tudo bem, que os atletas dessem o máximo e que vença o melhor — e que o melhor seja sempre o Boxe.
Que todos saiam com um sorriso e com vontade de voltar no próximo ano.
E agradeço a vocês esta possibilidade de difundir e divulgar o Boxe nacional. Muito obrigado.