Daniela Januário é muito mais do que uma jovem atleta — é um símbolo de disciplina, coração e coragem. Desde o seu primeiro combate em 2017, permanece invicta, com apenas 17 anos. Começou a praticar Boxe aos 9 e desde então mostra o que a paixão e a consistência podem conquistar.
Daniela inspira — porque luta em silêncio, mas deixa marca com força.
Ela prova que a força não está apenas nos punhos, mas na atitude com que se ocupa o espaço — num desporto que durante muito tempo ignorou as mulheres. E lembra-nos que nunca é cedo demais para lutar por nós mesmas.
Imagem cedida Miriam Rautenberg
FightNews: Como entraste no boxe? O que te atraiu neste desporto quando eras ainda uma menina? O que mudou na tua vida desde que começaste a boxear — a nível pessoal?
Eu estava numa colónia de férias e era a semana do desporto. Fomos fazer um treino ao Recreativo Águias da Musgueira (o meu clube atual), mas, sendo sincera, na altura não foi algo que despertou totalmente a minha atenção.
Passados alguns meses, a minha mãe chamou-me para ir fazer um treino novamente, porque o meu irmão mais velho e ela já treinavam lá. Fui, experimentei e gostei — desde então, nunca mais parei.Desde que comecei a treinar Boxe, tornei-me uma pessoa menos agressiva. O Boxe ajuda-me a controlar-me em muitas situações em que, noutra altura, teria reagido de forma precipitada. Sinto que me tornei uma pessoa muito mais calma e controlada.
FightNews: Como foste recebida no ginásio sendo rapariga? Sentiste que tinhas de provar o teu valor duas vezes — como atleta e como mulher? Que preconceitos ainda existem no boxe feminino?
Não, sinto que sempre fui bem recebida, porque no nosso ginásio temos uma frase muito importante: ‘O Boxe é para todos — aqui dentro somos todos iguais.’ Estamos ali todos para aprender. Sempre treinei com homens e fui sempre bem tratada. Até sinto que sou uma referência para alguns — ou até para muitos deles.
A imagem das mulheres no Boxe tem vindo a progredir, mas ainda existem algumas diferenças e preconceitos. Vejo que as mulheres continuam a receber menos reconhecimento, apoio e visibilidade do que os homens.
Ainda há muitas pessoas que acreditam que o Boxe ‘é um desporto de homens’, mas isso está totalmente errado — o Boxe é um desporto para todos.”
Como eu própria já vivi, ainda há poucas atletas femininas, especialmente em certas categorias de peso, o que dificulta o crescimento desportivo, a experiência em ringue e a continuidade das carreiras. Mas vejo o cenário a mudar: há cada vez mais mulheres no Boxe, e agora o objetivo é inspirar outras mulheres a entrarem neste desporto.
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FightNews: Como vês a situação atual das mulheres no boxe português? Há combates suficientes? Há visibilidade? Apoio e investimento? O que gostarias de dizer às federações e instituições que regulam o desporto?
A situação das mulheres no Boxe português tem vindo a evoluir, mas ainda há muito caminho pela frente. Cada vez mais vemos mulheres a entrar neste desporto, a competir e a mostrar o seu valor, o que é muito positivo. No entanto, ainda existem várias limitações que dificultam o crescimento do Boxe feminino em Portugal.”
Um dos principais problemas é a falta de combates e de adversárias, especialmente em algumas categorias de peso. Isso torna mais difícil ganhar experiência e ritmo competitivo, algo essencial para o desenvolvimento de qualquer atleta.
Além disso, ainda existe pouca visibilidade em torno do Boxe feminino. As atletas acabam por receber menos destaque e menos reconhecimento, mesmo quando alcançam grandes resultados. Tanto o Boxe feminino como o masculino enfrentam a falta de investimento e apoio, o que dificulta o desenvolvimento e a progressão das atletas em Portugal.
O que eu gostava de dizer às federações e instituições é simples: acreditem mais nas mulheres do Boxe. Há muito potencial, dedicação e amor por este desporto — só precisamos de mais oportunidades para o mostrar.
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FightNews: O que significa força para ti — física e mentalmente?
Para mim, força não é apenas levantar pesos ou aguentar golpes no ringue. É também resistir às dificuldades, manter a calma em momentos de pressão e superar os meus próprios limites.
Força física e mental andam de mãos dadas no Boxe: quanto mais treino, mais confiança e controlo consigo ter, não só no desporto, mas na vida.
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FightNews: Que mensagem deixarias a uma rapariga que quer experimentar o boxe?
Diria que o Boxe é para todas. Não importa a idade, a força ou a experiência — o mais importante é a vontade de aprender e desafiar-se. O Boxe ensina disciplina, confiança e coragem — e acima de tudo, ajuda a perceber que somos capazes de muito mais do que pensamos.
Não tenhas medo de entrar no ringue e tentar.
FightNews: Consideras-te um modelo a seguir? E o que gostarias de transmitir?
Não me vejo como perfeita ou invencível, mas sei que o que faço pode inspirar outras pessoas a acreditarem em si mesmas e a perseverarem nos seus sonhos. Gostaria de transmitir que o Boxe não é só um desporto — é uma ferramenta para crescer, aprender a controlar-se e superar limites.
Todas as raparigas podem fazê-lo sem medos ou preconceitos.
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FightNews: Qual é o teu grande objetivo no boxe?
O meu grande objetivo é continuar a evoluir como atleta, ganhar experiência em combates de alto nível e conquistar títulos que realmente me desafiem. Quero viver do Boxe, subir aos grandes palcos e representar Portugal da melhor forma possível, sem nunca me esquecer de onde vim e de quem me ajudou a chegar até aqui.
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FightNews: Como te vês daqui a alguns anos — dentro e fora do ringue?
“Dentro do ringue, vejo-me como uma atleta mais completa, confiante e consistente, pronta para enfrentar adversárias fortes e inspirar outras raparigas a entrar no Boxe.
Fora do ringue, quero partilhar a minha experiência, motivar e apoiar quem começa no desporto, mostrando que dedicação, disciplina e paixão podem transformar vidas.
Para além disso, quero ajudar a minha família a ter melhores condições, sem preocupações, como forma de agradecer tudo o que eles sempre fizeram por mim.
Daniela Januário representa todas as raparigas que aprenderam a não gritar alto — mas a golpear com precisão. Ela é sinónimo de coragem, disciplina e foco silencioso. Mostra-nos que aos 17 anos não só se pode sonhar — como também deixar uma marca.
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