Com uma postura exigente, disciplinada e apaixonada pelo Boxe, Gonçalo Pinto tem sido um dos grandes impulsionadores da modalidade em Portugal. À frente da equipa CrossPunch, o treinador conduziu as suas atletas a uma grande performance no Golden Gloves 2025, um dos grandes torneios de boxe do calendário nacional. Apostando fortemente na equipa feminina, Gonçalo destacou o trabalho árduo, a evolução técnica e o espírito de união que define o grupo.
Em entrevista ao Fight News Portugal, o treinador falou sobre as conquistas recentes, a preparação intensa, os desafios da época e os valores que o Boxe lhe ensinou — e que agora transmite à nova geração de atletas.
Imagem cedida Gonçalo Pinto
FightNews: Antes de mais, parabéns pelas conquistas! Como é que avalia o desempenho geral da equipa CrossPunch neste evento Golden Gloves?
Gonçalo Pinto: Muito obrigado, e obrigado por estarem a acompanhar o nosso trabalho!
Este ano apostamos tudo na nossa equipa feminina, e trabalhámos muito para trazer os títulos todos.
Elas foram formidáveis durante toda a preparação. Eu sou muito exigente em todos os aspetos, e não perdoo desvios na dieta nem faltas a nenhum treino.
Por isso, sempre que nos apresentamos numa competição é porque estou satisfeito com o rendimento das minhas atletas.
Treinamos sempre para vencer e para nos apresentarmos na melhor forma de sempre! E foi isso que aconteceu este domingo no evento Golden Gloves.
Imagem cedida Gonçalo Pinto
FightNews: O que é que mais o orgulhou nas vitórias das suas atletas que conquistaram os cinturões?
Gonçalo Pinto: A entrega delas em todo o processo, por si só, já me deixou muito orgulhoso. Como lhes costumo dizer, sou o maior fã delas, mas também o maior crítico (quando as coisas não estão como gosto, não sou nada simpático).
E elas estão a crescer a olhos vistos. Se tiveram oportunidade de ver os combates, apresentámos três estilos completamente distintos.
A Sofia, muito estilista, sempre a movimentar e jogar em velocidade — temos sempre como foco bater claro e não receber nenhum golpe. Vencemos os três rounds sem dúvida para os juízes, frente a uma incrível atleta, a Cris Soares, que admiramos muito e também nos desafiou a treinar mais.
Imagem cedida Gonçalo Pinto
A Cláudia, que está no último ano de carreira devido à idade, é uma força da natureza. Não conheço ninguém com a determinação e resiliência dela — o meu maior trabalho é conseguir segurá-la e meter golpes só quando é necessário (se eu deixar, ela vai estar os 9’ do combate sempre a bater). E conseguimos! Fez um combate tecnicamente limpo, criou momentos muito bonitos e não foi tocada. Foi incrível.
Imagem cedida Gonçalo Pinto
A Beatriz (Tiz) é a minha atleta mais antiga e mais experiente. Confesso que não estava à espera de uma adversária tão técnica e isso surpreendeu-nos no primeiro assalto. Mas já é habitual deixarmos o primeiro assalto para análise, e entrámos no segundo a vencer, com um jogo de contra-golpe muito mais forte e ofensivo, prontos para dar a volta ao combate. Por azar (espero eu), a nossa adversária deu-lhe uma cotovelada no sobreolho e o árbitro não nos deixou continuar devido a um corte profundo. Foi uma tristeza porque podíamos ter vencido três títulos.
De qualquer forma, estou carregado de orgulho nas minhas três meninas.
Imagem cedida Gonçalo Pinto
FightNews: Que tipo de preparação foi feita para chegar a este resultado? Houve algum foco especial em aspetos técnicos, físicos ou mentais?
Gonçalo Pinto: Tal como sempre fui como atleta, agora como treinador sou muito físico, e não aceito ver um atleta mal fisicamente — isso nunca vai acontecer na CrossPunch.
Portanto, para além de questões técnico-táticas que não posso revelar aqui, foquei muito no controlo total do ringue. Elas têm que controlar o combate desde que começa até terminar, e foi isso que estivemos a trabalhar durante este mês de setembro.
Para além disto, esta prova é numa data ingrata para todos os treinadores… o pós-férias é um pesadelo. Temos que gerir os estragos das férias!
Esta é a grande batalha de todos os pugilistas — a balança — e após o mês de agosto é duro voltar e ambicionar vencer três títulos numa prova tão prestigiada como a Golden Gloves.
Imagem cedida Gonçalo Pinto
FightNews: Quais são os principais objetivos da equipa para o resto da época? Já há próximos combates ou torneios em vista?
Gonçalo Pinto: O grande objetivo vem agora. Trabalhamos o ano todo para sermos Campeões Nacionais. Temos em outubro o Campeonato Regional que nos pode dar o apuramento ao Nacional.
No nosso clube ainda só tivemos um Campeão Nacional, o Lucas Borges, e quero muito juntar muitos mais Campeões!
FightNews:Ao longo do seu percurso como lutador e agora treinador, que valores o Boxe lhe ensinou e que procura transmitir aos seus alunos e atletas?
Gonçalo Pinto: Como costumo dizer, o Boxe, para mim, é a escola da vida. Quando achamos que somos os melhores, aparece sempre alguém para mostrar que não é bem assim e que temos que continuar a trabalhar arduamente.
Estamos constantemente a receber lições de humildade ao longo da carreira.
E é isso que tento passar para os meus alunos: nunca podemos estar satisfeitos com nenhum resultado. Temos sempre que querer mais e melhorar, porque hoje somos campeões nacionais e amanhã perdemos nos quartos de final do Campeonato Regional.
O trabalho tem que ser constante — um grande atleta nem nas férias pode deixar de o ser. E aqui é que está um dos segredos da longevidade na carreira.
Continuo a achar que o Boxe devia ser dado nas escolas, por pessoas formadas e adequadas. Acho mesmo que seria uma mais-valia para todas as crianças.
Sou muito agradecido aos meus pais por me terem levado para as artes marciais, e posteriormente para o Boxe.
E sou muito agradecido aos meus atletas e respetivos pais por me confiarem a sua saúde e integridade física. Por isso, eu continuo a estudar para lhes dar sempre os melhores treinos e estar ao nível do crescimento deles.
Imagem cedida Gonçalo Pinto
FightNews:Como descreve o ambiente e o espírito da equipa CrossPunch?
Gonçalo Pinto: Família. Somos todos unidos, quando um perde a alegria das outras vitórias cai, isso diz muito de nós todos.
Há abertura para desabafos, não há vergonha de assumir que temos medo. Porque o Boxe é um desporto muito solitário, mas não tem que ser. Se tiverem uma boa equipa com um treinador que vos ouça (verdadeiramente), as coisas ficam mais fáceis, e sei que eles se apoiam uns nos outros e também em mim.
Eu vibro tanto com os combates deles como vibrei em todos os meus 100 combates — perco o sono, sonho com as estratégias, enfim, é uma loucura. Só mesmo a minha mulher para me aturar nestas fases.
Imagem cedida Gonçalo Pinto
FightNews: Por fim, que mensagem gostaria de deixar a todos os que apoiam e acreditam no trabalho da CrossPunch?
Gonçalo Pinto: Obrigado!
O Boxe em Portugal tem muito pouca visibilidade, e são os nossos fãs que perdem fins de semana para nos vir apoiar, que nos alimentam e fazem dos atletas pequenas estrelas.
Cada aplauso, cada grito, cada choro mantém a chama viva de cada atleta, e isso não tem preço.
Por isso tenho mesmo que agradecer de coração cheio a todas as pessoas que nos seguem e gritam por nós em todos os combates!
E tenho que vos agradecer a vocês, Fight News Portugal, por manterem este desporto vivo nas notícias!