O cinema pode ser uma poderosa ferramenta de transformação social. É com essa convicção que Olavo Santiago, assistente e educador social, decidiu abandonar o registo formal do trabalho social e dedicar-se a contar histórias que inspiram através da sétima arte. Em A Minha Primeira Luta Foi Contra Mim, o realizador mergulha na vida da pugilista Maria Gamboa, revelando tanto a sua força enquanto atleta como as marcas profundas da luta contra a obesidade e o preconceito. Em entrevista, Olavo partilha os bastidores da produção, os desafios enfrentados e a mensagem que espera transmitir ao público.
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FightNews. O que o inspirou a contar a história da Maria Gamboa através do cinema?
Eu sou assistente social e educador social. E após ter trabalhado alguns anos no registo formal do trabalho social, tomei a decisão de deixar aquele formato do trabalho social e desenvolver trabalho social através do cinema.
A Maria, enquanto atleta, é uma guerreira com um percurso admirável. No que diz respeito a artes marciais, principalmente quando envolve competição, ainda há muitos estereótipos associados e eu queria trazê-los para cima da mesa através do cinema.
Por outro lado, para além do que é visível da Maria enquanto atleta, existe o outro lado da Maria que o público não conhecia, onde a Maria travou uma outra batalha que se cruzou com as que ela travou nas artes marciais. A obesidade é uma doença pessoal e social, pois não implica apenas a pessoa que a vive, mas também a perceção que os outros têm sobre a pessoa que lida com a obesidade. E tanto eu como a Maria consideramos importante chamar a atenção das pessoas para esse tema, pois viver com obesidade não é fácil em nenhuma idade, mas quando se trata de uma criança e adolescente, fica ainda mais vulnerável.
O facto de ser pai de uma menina deu-me ainda mais motivação para contar a história da Maria, porque é o tipo de exemplo que gostava que a minha filha tivesse oportunidade de conhecer e de se inspirar.
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FightNews:Como surgiu o primeiro contacto com a Maria e em que momento percebeu que tinha ali uma narrativa forte para um documentário?
Eu já conhecia a Maria do nosso tempo de adolescência e, já depois de adulto, acompanhava a Maria enquanto atleta, mesmo sem me ter apercebido que era a mesma pessoa que eu já tinha conhecido quando era adolescente.
Só depois de conversar com a Maria a propósito do documentário é que me apercebi que era a mesma pessoa da adolescência.
Isso automaticamente fez com que a minha vontade de documentar o percurso da atleta se tornasse num propósito de mostrar ao mundo o caminho da Maria dentro e fora do ringue.
A Maria percebeu a ideia e aceitou fazer o documentário logo no primeiro contacto. Para além disso, a Maria foi proativa e fez questão de contribuir para a narrativa do documentário, não se limitando simplesmente a responder às minhas perguntas, mas a sugerir temas que ela considerou importante abordar no documentário.
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FightNews: Qual foi o maior desafio em transformar a vida da Maria numa obra cinematográfica?
Este documentário é resultado de um processo de cinco meses de gravação e três meses de pós-produção.
Um dos grandes desafios foi o facto de termos outros compromissos paralelos que não nos permitiram gravar com a fluidez ideal. Tinha que aproveitar todas as oportunidades que surgiam para filmarmos, o que implicou deixar a minha vida pessoal em standby para que pudesse dedicar todo o meu tempo livre a filmar a Maria sempre que houvesse oportunidade.
Por outro lado, importa mencionar que este documentário foi feito sem qualquer tipo de patrocínio ou ajuda de custo. Todos os custos de produção saíram do meu próprio bolso, o que acaba sempre por limitar a produção de alguma forma, pois os meus recursos eram limitados.
O desenvolvimento de um documentário é sempre um processo invasivo. Temos de entrar na vida privada e, por vezes, íntima dos protagonistas, assim como, no que toca a temas a abordar no documentário, levei a Maria a tocar em assuntos que para ela eram sensíveis e que lhe fizeram reviver momentos da vida menos felizes. Ser capaz de voltar a esse lugar de dor e desconforto requer uma grande coragem.
A vontade, dedicação e entrega da Maria no desenvolvimento deste documentário fizeram com que todo este processo se tornasse mais fácil e prazeroso.
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FightNews: O título “A Minha Primeira Luta Foi Contra Mim” é muito forte. O que significa para si e de que forma traduz a essência da Maria Gamboa?
Quando eu e a Maria falámos sobre o título, surgiram-nos várias ideias. Quando a Maria mencionou este título, para mim foi imediato que teria de ser este. Ao conhecer a história da Maria na pré-entrevista, eu sabia que este tinha de ser o título. Não apenas por ser um título forte para o público, mas principalmente pela verdade do título em relação à Maria. Não foi um título inventado, foi uma frase real sobre a Maria que virou o título do documentário.
FightNews: Que valores ou reflexões espera que o público retire deste filme?
Espero que as pessoas pensem sobre o impacto negativo que o bullying, que para as pessoas que o praticam muitas vezes é só uma brincadeira, pode ter no outro.
Que as pessoas que estão nessa situação se mentalizem que é possível sair dela, mas que isso requer uma decisão firme e muito esforço.
Que, tal como um homem, uma mulher pode praticar artes marciais e até competir, sendo que isso não faz dela menos feminina.
Quebrar esses mesmos estereótipos de mulheres para mulheres.
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FightNews: Qual foi o processo mais exigente: a pesquisa, a filmagem ou a edição? E que papel teve a própria Maria Gamboa na construção narrativa do documentário?
Eu diria dois dos processos:
- A filmagem, pois fiz todo o documentário completamente sozinho, o que requereu estar superconcentrado para cometer o mínimo de erros possível enquanto filmava, pois em documentário a maior parte das vezes os momentos não se repetem. Por isso, se perder momentos importantes, nunca mais os recupero.
- A legendagem. Eu acreditava e acredito muito neste filme, e queria que ele pudesse ser visto nacional e internacionalmente, por isso, tinha obrigatoriamente de fazer legendas. Fazer legendas dá um trabalho absurdo, principalmente num filme desta duração. Para dificultar ainda mais as coisas, tive de fazer primeiro as legendas em português para depois as traduzir para inglês, para que o documentário pudesse ser visto internacionalmente. Ao contrário do que se pensa, que hoje em dia os programas traduzem tudo rápido, isso é giro para vídeos curtos, mas para documentários longos, e com montes de interferências no áudio com outros sons e vozes, os programas automáticos de tradução perdem-se completamente. Por isso, acabei por fazer a tradução do filme manualmente, tanto para português como para inglês. Levei dois meses só a fazer as legendas.
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FightNews: O documentário já recebeu distinções internacionais, como a Honorable Mention no Athens International Monthly Art Film Festival e a nomeação no Five Continents International Film Festival. O que representa para si e para a equipa este reconhecimento além-fronteiras?
Para além dos festivais mencionados nas perguntas, o filme foi também selecionado para o South Film and Arts Academy Festival e foi premiado como melhor filme de desporto, e eu fui premiado como melhor editor de longa-metragem.
O reconhecimento que este filme tem recebido além-fronteiras deixa-me extremamente contente e orgulhoso. Quando eu decidi fazer documentários, eu já sabia que iria ser um caminho difícil, mas quando dei início ao processo percebi que é ainda mais difícil e demorado do que eu imaginava, principalmente quando eu faço tudo sozinho. Não tenho mais ninguém a trabalhar comigo. Eu produzo, escrevo, dirijo, filmo, edito, faço legendas, fiz cartazes para promoção, tudo.
Quando ficou tudo pronto, eu estava exausto e as minhas pessoas próximas perguntavam-me porque me empenho tanto em algo que não me dá rendimento financeiro. Para mim, fazer filmes é uma missão e um propósito de vida.
Ver reconhecido o meu esforço internacionalmente é uma enorme satisfação.
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FightNews: Que planos tem para o documentário? Existe a intenção de levá-lo a mais festivais ou a plataformas de streaming?
O meu plano para o documentário é que ele se mantenha público, que possa ser visto pelo maior número de pessoas possível e tocar nas pessoas que o assistirem.
Felizmente, recebi mais de 300 emails com pedidos de submissão do documentário para festivais, no entanto só submeto aos festivais que são gratuitos, pois não tenho verbas para submeter aos festivais que requerem pagamento na submissão, apesar de me oferecerem descontos que vão de 20% a 90%.
Felizmente, cerca de 20 e poucos festivais ofereceram-me a submissão gratuitamente e aos que o fizeram eu submeti. Só soube da existência da plataforma que eu uso para submeter o filme a festivais após ter o filme feito, por isso, não fiz o filme a pensar nos festivais. No entanto, havendo a possibilidade de dar a conhecer o filme a entidades do cinema internacional, terei sempre todo o gosto em fazê-lo, desde que não tenha que pagar para tal.
No que diz respeito a plataformas de streaming, é um circuito muito fechado, que ainda não consegui entrar.
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FightNews: Há algum outro projeto cinematográfico ligado ao desporto ou à superação pessoal que gostaria de desenvolver?
Sim. Ainda há outros atletas, noutros desportos, que gostava de documentar o seu percurso, e estou a mexer-me nesse sentido. Mas, como devem compreender, não posso revelar quem são.
FightNews: Por fim, se pudesse resumir a Maria Gamboa numa palavra depois desta experiência, qual seria?
Inquebrável.
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