“Servir a comunidade, educando com amor e positividade”
Paula Figueiredo cresceu em Mira-Sintra e desde cedo se envolveu em projetos sociais. Professora de JiuJitsu e fundadora da Academia de JiuJitsu Ocupacional®, decidiu tirar um sonho da gaveta e criar um espaço pioneiro em Portugal, que alia artes marciais, pedagogia e inclusão.
Em entrevista, fala sobre a origem do projeto, os desafios iniciais e a ambição de transformar vidas através do desporto.
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FightNews: Paula, como nasceu a ideia da Academia de JiuJitsu Ocupacional® e o que a motivou a avançar com este projeto?
Paula Figueiredo: A ideia da Academia de JiuJitsu Ocupacional® nasceu de um desafio, um empurrão do meu mentor: “porque não levas à comunidade o que fazes de melhor?” Foi assim que decidi arriscar e colocar a minha experiência pedagógica e a experiência enquanto professora de JiuJitsu ao serviço de uma comunidade atípica, com tanta falta de respostas efetivas. Desde os 14 anos que trabalho ligada a projetos sociais e passei por várias instituições, onde tive um contacto próximo com crianças e jovens com diferentes necessidades educativas, e há um ano e meio decidi tirar o sonho da gaveta.
Fui percebendo que o JiuJitsu, num formato adaptado, para além de ser uma arte marcial, é uma ferramenta incrível de desenvolvimento pessoal: trabalha a disciplina, a autoconfiança, a concentração e a capacidade de superação, mas tem um potencial psicomotor gigantesco.
O que me motivou a avançar? Foi constatar que havia uma lacuna: não existia em Portugal um espaço que adaptasse o JiuJitsu de forma estruturada e intencional para crianças e jovens com necessidades educativas especiais. Sentia que era possível criar um ambiente seguro, inclusivo e estimulante, onde cada aluno pudesse evoluir ao seu próprio ritmo e sentir-se verdadeiramente integrado. Foi essa visão — usar o JiuJitsu como ponte para a inclusão sustentada e para o desenvolvimento global — que deu origem à Academia.
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FightNews: O que distingue o JiuJitsu Ocupacional do JiuJitsu tradicional?
Paula Figueiredo: O JiuJitsu brasileiro convencional é uma arte marcial com um forte foco técnico, onde um dos objetivos é o domínio das técnicas, a progressão nas graduações e, muitas vezes, a participação em competições. É uma prática desportiva exigente, que desenvolve força, estratégia, disciplina e resiliência.
Na Academia de JiuJitsu Ocupacional, o foco é diferente. As técnicas são adaptadas, e o JiuJitsu é utilizado como ferramenta pedagógica e integrativa, direcionado especificamente a crianças e jovens com necessidades educativas especiais, acolhendo a sua unicidade e com um foco programado e diferenciado para cada aluno. Mais do que ensinar posições e técnicas, trabalhamos competências transversais: motricidade, coordenação, gestão emocional, comunicação, autoestima e inclusão social.
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FightNews: Em termos práticos, como é que a metodologia da Academia promove inclusão, confiança e disciplina?
Paula Figueiredo: Em termos práticos, a metodologia da Academia assenta em três pilares fundamentais: adaptação, progressão e valorização.
Paula Figueiredo: Primeiro, adaptamos o JiuJitsu à realidade de cada criança ou jovem. Isso significa que não seguimos uma fórmula única: ajustamos os exercícios, a intensidade e até a forma de comunicar, atendendo que recebemos diferentes níveis de suporte, ausência de verbalidade em muitos dos casos, e comorbilidades associadas, para que cada aluno consiga participar e sentir-se capaz.
Depois, trabalhamos a progressão de forma individualizada.
Por fim, a valorização é constante.
Na prática, é este equilíbrio entre estrutura, flexibilidade e apoio que promove a inclusão, a confiança e a disciplina.
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FightNews: Que tipo de alunos e famílias esperam acolher neste espaço?
Paula Figueiredo: Na Academia de JiuJitsu Ocupacional esperamos acolher crianças e jovens com necessidades educativas especiais, como perturbações do espectro do autismo, défice de atenção e hiperatividade, síndrome de Down, entre outras condições que possam beneficiar de um espaço inclusivo e estruturado.
Mas o nosso espaço não se limita a estes alunos. Temos aulas de grupo infantis e adultos, pois queremos acolher famílias que procuram no desporto muito mais do que uma prática física — famílias que valorizam a inclusão, a cooperação, o respeito e que acreditam que cada criança deve ter a oportunidade de crescer e desenvolver-se de forma plena. Para nós, Criança é Criança!
O que procuramos criar é uma comunidade: um lugar onde os alunos se sintam integrados e confiantes, e onde os pais encontrem apoio, partilha e a certeza de que os seus filhos são respeitados e valorizados.
O nosso lema: “Servir a Comunidade, Educando com Amor e Positividade”.
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FightNews. De que forma a Academia pode ajudar a comunidade de Mira-Sintra a crescer e a unir-se em torno do desporto?
Paula Figueiredo: Acredito que a Academia pode ser um verdadeiro ponto de encontro para a comunidade de Mira-Sintra, o outrora bairro social, hoje freguesia, que me viu crescer desde menina. O desporto, e em particular o JiuJitsu, tem a capacidade única de juntar pessoas diferentes em torno de valores comuns como o respeito, a disciplina, a entreajuda e a superação.
Ao abrir este espaço, queremos oferecer às famílias um local seguro e acolhedor, onde as crianças e jovens com necessidades educativas especiais possam praticar desporto lado a lado com os seus pares, promovendo inclusão e quebrando barreiras sociais.
Além disso, pretendemos dinamizar a comunidade através de eventos, workshops e atividades abertas, que envolvam não só os alunos e as suas famílias, mas também escolas, associações locais e profissionais da área da saúde e da educação.
No fundo, o objetivo é que a Academia de JiuJitsu Ocupacional seja mais do que um espaço de treino: seja um ponto de união e de crescimento coletivo, onde todos se sintam parte de um mesmo projeto de inclusão através do desporto.
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FightNews: Como imagina que o JiuJitsu Ocupacional pode contribuir para transformar vidas a longo prazo?
Paula Figueiredo: Imagino o JiuJitsu Ocupacional como uma ferramenta que vai muito além do tatami. A longo prazo, acredito que pode transformar vidas porque oferece às crianças e jovens um espaço onde se sentem capazes, valorizados e integrados, com estímulos e cargas sensoriais reduzidas e adaptadas, e a possibilidade de uma inclusão respeitosa, algo que muitas vezes lhes é negado noutros contextos.
Vejo também o JiuJitsu Ocupacional como uma forma de quebrar preconceitos e abrir caminho para uma sociedade mais inclusiva. Cada aluno que cresce dentro desta metodologia leva consigo valores de respeito e de cooperação, que se espalham pela comunidade.
Em última análise, acredito que este projeto pode criar um legado: não apenas de atletas, mas de cidadãos mais confiantes, autónomos e conscientes do seu valor. Essa é a verdadeira transformação que procuro: vidas e famílias inteiras impactadas pelo poder do JiuJitsu como ferramenta de inclusão e crescimento humano.
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FightNews. Quais são os maiores desafios que antevê nesta fase inicial?
Paula Figueiredo: Nesta fase inicial, antevejo alguns desafios naturais de qualquer projeto pioneiro. O primeiro é criar consciência e compreensão sobre o que é o JiuJitsu Ocupacional e como ele se diferencia do JiuJitsu convencional. Muitas pessoas ainda não percebem que o nosso foco vai muito além da técnica ou da competição: tratamos esta modalidade como ferramenta integrativa e educativa, com inclusão sustentada e gradual.
Outro desafio é conquistar a confiança das famílias e da comunidade. Para muitas delas, inscrever um filho com necessidades educativas especiais num espaço de desporto estruturado pode gerar dúvidas ou receios. É fundamental demonstrar que cada aluno será acompanhado de forma personalizada e segura, respeitando o seu ritmo e capacidades.
Por fim, existe o desafio de desenvolver recursos e parcerias para garantir a sustentabilidade do projeto e a formação contínua de professores nesta metodologia inovadora. Mas vejo todos estes desafios como oportunidades: são eles que nos obrigam a ser criativos, resilientes e a reforçar a missão da Academia.
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FightNews: Se pudesse deixar uma mensagem às famílias e jovens que ainda não conhecem o vosso projeto, qual seria?
Paula Figueiredo: Se pudesse deixar uma mensagem, diria que a Academia de JiuJitsu Ocupacional é um espaço para TODOS. Um lugar onde cada criança e jovem, independentemente das suas capacidades ou desafios, pode crescer, aprender e sentir-se valorizado.
Convidamos as famílias a conhecerem o nosso projeto com mente aberta e coração disponível. Aqui, o foco não é apenas o desporto — é a inclusão, o respeito, a confiança e o desenvolvimento de cada aluno como pessoa. Queremos unir famílias, fomentar a troca de experiências e o crescimento.
Juntos, enquanto comunidade, podemos construir um ambiente de aprendizagem, amizade e superação.
Acreditem e apostem no potencial dos vossos filhos! Nós acreditamos neles e em vós, todos os dias!
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