Marisa Barbosa é uma mulher que luta – no ringue, na vida e no coração. Foi atleta de sucesso no Muay Thai e Kickboxing, nomeadamente em K1, onde construiu grande parte da carreira, mas também competiu em boxe. Hoje, é treinadora, coach de boxe e prepara-se para dar mais um passo pioneiro: abrir o seu próprio clube de desportos de combate.
Mãe recentemente, Marisa é uma das poucas mulheres em Portugal a assumir este papel, e prova todos os dias que as mulheres não só pertencem ao ringue, mas também a posições de liderança. Nesta entrevista exclusiva para o projeto More Women in Boxing, fala-nos sobre coragem, barreiras estruturais, força feminina – e sobre como podemos abrir caminho para que mais raparigas e mulheres descubram o boxe.
Imagem cedida Miriam Rautenberg
FightNews: Marisa, como começou a tua jornada nas artes marciais – e quando surgiu o boxe no teu caminho?
Desde miúda que estou dentro do meio do boxe, pois o meu pai foi atleta e posteriormente treinador da modalidade. No entanto, só muito mais tarde é que me despertou o interesse de praticar kickboxing e desde aí fiz uma carreira progressiva na modalidade.
FightNews: O que mudou em ti – física, mental ou profissionalmente – desde que começaste a treinar desporto de combate?
Os desportos de combate mudaram a minha vida, tornei-me muito mais ponderada, mais confiante, com mais autoestima e, acima de tudo, a valorizar-me e a não dar importância à opinião alheia. Fisicamente senti-me mais forte, mais preparada, mais tudo, imparável.
Imagem cedida Miriam Rautenberg
FightNews: Que conselho darias a meninas e mulheres que estão a pensar em começar nas artes marciais ou no boxe?
O meu conselho para as meninas que querem começar é precisamente para começarem, dar o passo, porque acredito que é um desporto que nos traz muita coisa boa e nos faz render.
FightNews: O que é que o boxe tem de especial, comparado com outras modalidades ou estilos de combate?
O boxe e modalidades de combate com pleno contacto trazem ao atleta uma certa adrenalina que só quem pratica consegue entender a diferença. É um desporto de superação diária que nos rende precisamente por isso: cada dia estar melhor que o dia anterior.
FightNews: Quais são os maiores desafios que as mulheres ainda enfrentam no boxe?
Os maiores desafios que as mulheres enfrentam no boxe, neste momento, acho que há pouca competitividade no boxe feminino e, infelizmente, ainda algum preconceito de que o boxe é para homens.
Imagem cedida Miriam Rautenberg
FightNews: Porque achas que ainda há tão poucas mulheres ativas no boxe?
Precisamente porque também as mulheres ainda têm esse preconceito e não conhecem a verdadeira essência da modalidade.
FightNews: Porque é que, para muitas mulheres, o passo para a competição parece tão difícil?
De facto, a competição é difícil, e eu acredito que não é para todos. Competição exige entrega diária, disciplina, sacrifício, vontade e muita força psicológica. Desta forma, nem todas estão preparadas ou querem dar este passo.
FightNews: Como podemos motivar mais mulheres a competir?
Tudo começa pelo treinador, a atleta tem que confiar no trabalho do treinador. Desta forma existe todo um processo que pode despertar o desejo da competição. Nós atletas, ou ex-atletas, podemos passar o nosso testemunho e as transformações que fizeram de nós o que somos hoje: aumento de autoconfiança, autoestima e valorização.
Imagem cedida Miriam Rautenberg
FightNews: Que mudanças sociais seriam necessárias para que mais mulheres encontrem o seu lugar no boxe?
Promover mais eventos femininos, destruir a ideia de que o boxe é para homens através da visibilidade na mídia, promover também escolas em que as treinadoras são mulheres.
FightNews: Há exemplos positivos no boxe feminino que te inspiram ou te dão esperança?
Tenho algumas lutadoras, como a Katie Taylor, que me orgulham enquanto mulher lutadora, pela garra e resiliência.
FightNews: Tu és treinadora. Na tua opinião, porque é que há tão poucas mulheres a treinar boxe?
Porque ainda existe o preconceito de que o boxe é para homens.
Imagem cedida Miriam Rautenberg
FightNews: O que poderia ser feito concretamente para formar e atrair mais treinadoras de boxe?
Mais competitividade e mais visualização na mídia.
FightNews: Qual é a importância de haver treinadoras, especialmente para raparigas ou mulheres jovens?
Haver treinadoras ajuda a desconstruir a ideia de que o boxe é para homens, assim como deixar mais à vontade a mulher a querer iniciar a atividade, visto a treinadora ser também mulher.
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FightNews: Como podemos fortalecer a imagem da mulher treinadora – na perceção pública e nas estruturas desportivas?
Acho que, independentemente de ser mulher ou homem, o que define a imagem da mulher treinadora é, sem dúvida, o trabalho que o treinador/a realiza.
FightNews: Como vês as estruturas dos clubes de boxe em Portugal – ainda são demasiado masculinas?
Alguns.
FightNews: O que achas que falta para que as mulheres se sintam mais seguras e bem-vindas num ginásio de combate?
Falta essas mesmas mulheres darem o passo, porque felizmente o conceito está a mudar para melhor e acredito que atualmente, em qualquer ginásio de boxe, as mulheres são bem acolhidas.
FightNews: Qual o papel de redes como o More Women in Boxing na transformação do desporto?
O papel é a divulgação e dar a conhecer a modalidade e chamar mais atletas.
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FightNews: O que gostarias de ver mudar por parte de federações, clubes ou meios de comunicação para promover o boxe feminino?
Gostaria de ver mais mulheres assumir postos de liderança.
FightNews: Como mudou a tua visão do trabalho desde que te tornaste mãe – como treinadora e agora como futura proprietária de clube?
O trabalho nunca estabiliza, estamos sempre a aprender. Cada treino, cada atleta traz uma aprendizagem. Mas uma coisa eu sei que não muda: não é fácil! Mas se fosse fácil não seria para mim.
Imagem cedida Miriam Rautenberg
FightNews: Como geres o teu dia-a-dia entre maternidade, treinos e responsabilidades no clube? Onde encontras apoio – e onde ele ainda falta?
Sem dúvida o meu marido, também treinador, é o meu apoio, o meu equilíbrio. É a ele que devo a realização deste sonho: ter a nossa escola.
Imagem cedidas Miriam Rautenberg
FightNews: Que valores gostarias de transmitir ao teu filho – como mãe e como mulher no boxe?
Respeito, atitude, resiliência, determinação e que tenha muita garra na vida e no desporto.
FightNews: Agora estás prestes a abrir o teu próprio clube. De onde vem essa coragem – especialmente num setor ainda tão dominado por homens?
Não acho que seja coragem, mas sim confiança no meu trabalho. E eu confio muito e acredito no meu trabalho, assim como no trabalho do meu marido. Sem dúvida que juntos fazemos uma excelente equipa.
FightNews: Como te sentes por seres uma das poucas mulheres em Portugal a dar esse passo como fundadora de um ginásio?
Sinto-me diferenciada, especial.
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FightNews: Acreditas que vais enfrentar mais dificuldades pelo facto de seres mulher, especialmente em relação aos colegas homens da área?
Não. A minha carreira preparou-me para tudo, sei o que sou, sei o meu valor, confio no meu trabalho e acredito que um dia eu é que serei uma dificuldade para eles.
FightNews: O que te motiva nos dias difíceis?
A busca pelo sonho.
FightNews: O que dirias a uma mulher que ainda não tem coragem de entrar num ginásio de boxe?
O boxe, neste caso o kickboxing, mudou a minha vida. Queres experimentar?
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FightNews: Qual é a tua visão para o futuro do boxe feminino em Portugal?
Esta federação tem dado oportunidades de formação, entre outras, que já não assistia há muitos anos no boxe. Desta forma acredito que o caminho é a subir e que futuramente teremos o boxe feminino com mais competitividade e talento.
Frase final:
Podes ser o que quiseres ser.