Nesta entrevista, Sandra Teixeira, Sandra Rocha e Sara Cordeiro abrem o coração e partilham o que significa ser árbitra num mundo de combates, regras e superação. Três mulheres, três trajetórias únicas, mas uma certeza comum: juntas, dentro e fora do ringue, são mais fortes. Este é um testemunho de coragem, respeito e união, porque no final o combate é muito mais do que golpes: é também o poder de segurar umas às outras.
Imagem cedida Miriam Rautenberg
FightNews: Cada uma de vocês tem um percurso diferente no desporto de combate. O que as cativou inicialmente? Foi a competição, o espírito da modalidade, a comunidade?
Sandra Teixeira: Desde miúda sempre gostei dos desportos de combate. Via na televisão e gostava. Além disso, tinha um amigo que era atleta de boxe pelo Boavista. Mas em casa nunca me deixaram ir, era coisa de rapaz. Já em adulta, acabei por começar a praticar kickboxing, mas sempre fui um bocado baldas para competir. Acompanhava a equipa e adorava aquilo: o cheiro, a adrenalina, os combates em si, o ambiente.
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Sandra Rocha: O que me cativou inicialmente foi a essência do boxe enquanto desporto de superação, disciplina e respeito. Sempre admirei o espírito competitivo. A comunidade do boxe tem uma energia muito própria: intensa, mas também unida. No início, foi a curiosidade que me atraiu, mas rapidamente percebi que o boxe não é só um combate físico, é uma prova de caráter. E foi isso que me conquistou: o rigor da modalidade, o compromisso com a justiça e a paixão que todos colocam no ringue.
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Sara Cordeiro: Quanto a mim, posso dizer que os desportos de combate me estão no sangue. O meu pai é treinador de kickboxing desde que me lembro, e foi praticante de boxe até ter um acidente que o deixou cego e o impediu de continuar a carreira como atleta. Desde sempre fui atleta de kickboxing. Na altura, fui das primeiras raparigas neste desporto, isto há 30 anos atrás. Se hoje ainda existe uma grande discrepância entre os sexos, nessa altura ainda mais.
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FightNews: Quando foi o momento em que sentiram que queriam ou podiam assumir o papel de árbitra? Foi algo que surgiu naturalmente ou enfrentaram dúvidas no início?
Sandra Teixeira: Honestamente, nunca tinha pensado muito sobre a questão. Um dia, o meu treinador comentou que tinha bastante jeito, sabia as regras, as técnicas, a dinâmica das provas. Na altura, desvalorizei. Uns anos mais tarde, já nem sequer estava a treinar regularmente, vi um cartaz de um curso para novos árbitros de kickboxing e por impulso, decidi inscrever-me. A partir daí, desde o primeiro dia em que estive numa prova como árbitra — inicialmente estagiária — soube que era ali que queria estar. Competir nunca tinha sido a minha vocação, mas naquele momento percebi que ali podia verdadeiramente acrescentar valor à modalidade.
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Como disse anteriormente, quando me sugeriram entrar no mundo da arbitragem, pareceu-me algo impensável. Mas depois de iniciar, percebi que era exatamente ali o meu lugar e que podia acrescentar valor à modalidade. Na verdade, com o tempo surgem algumas dúvidas relativamente à continuidade na função, mas nunca se este é o meu lugar. Se há algo do qual não tenho qualquer dúvida, é exatamente disso. Estou muito consciente do meu valor nesta função.
Sandra Rocha: O momento em que percebi que queria ser árbitra surgiu de forma natural, mas não deixou de ter os seus desafios. Como já era árbitra de kickboxing e Muay Thai e tínhamos já a Sandra Teixeira no boxe, foi um bocadinho por incentivo dela. A arbitragem chamou-me a atenção pela sua responsabilidade: garantir a justiça, proteger os atletas e manter a integridade do combate.
No início, claro que surgiram dúvidas, principalmente por ser mulher num meio ainda muito dominado por homens. Questionei se seria aceite, se teria espaço. Mas percebi que a paixão pelo desporto falava mais alto. E cada vez que estava no ringue, sentia que era ali que devia estar. Com o apoio certo e força de vontade, o papel de árbitra passou a ser algo de que me orgulho muito.
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Sara Cordeiro: Durante muitos anos, fui praticante e atleta de competição. Quando comecei a trabalhar, não consegui conciliar os treinos com o horário laboral e acabei por me afastar um pouco. Mas após o nascimento do meu segundo filho, o meu pai desafiou-me a fazer o curso de arbitragem. Era a solução ideal para “voltar a casa”. Sabia de antemão que havia muito poucas mulheres, mas honestamente essa questão nunca me intimidou.
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FightNews: Como foi a vossa primeira experiência no ringue como árbitras? Lembram-se da primeira vez que vestiram a camisola oficial? Como foi o ambiente, o vosso estado emocional?
Sandra Teixeira: A primeira vez que subi ao ringue, acho que estava mais nervosa que os atletas. É uma sensação verdadeiramente aterrorizadora sentir que todos os olhos estão postos em nós. Na altura, achei que tinha feito tudo mal!
Num dos primeiros cursos de arbitragem que frequentei disseram que o papel do árbitro é tanto melhor quanto menos for notada a sua presença, e é verdade. De facto, o público está ali pelos atletas, pelo espetáculo, tudo menos pelo árbitro. Mas a verdade é que quando subimos ao ringue, sentimos que o foco somos nós, porque na realidade, seja em que modalidade for, o árbitro é uma figura que está sujeita ao escrutínio público.
Sandra Rocha: Lembro-me perfeitamente da primeira vez que entrei no ringue como árbitra. Foi um misto de orgulho, nervosismo e responsabilidade. O ambiente à volta era elétrico e eu ali no centro, com a missão de garantir que tudo decorresse de forma justa e segura.
Apesar de ter feito toda a preparação e formação, naquele momento senti o peso simbólico do uniforme: representava não só a autoridade do árbitro, mas também a confiança que tinham depositado em mim. Estava nervosa, claro, é impossível não estar, mas também estava profundamente focada. Assim que o combate começou, tudo à minha volta desapareceu e entrei no que eu chamo de “modo ringue”, onde só existem os atletas, as regras e a minha atenção total.
Foi uma experiência marcante, não só porque foi a primeira, mas porque ali confirmei que estava no lugar certo. E no final, ao ouvir o respeito dos colegas e o reconhecimento pelo trabalho feito, senti que aquele era apenas o início de um caminho onde podia crescer, contribuir e abrir portas para outras mulheres também.
Sara Cordeiro: A primeira vez que fui arbitrar já foi há muitos anos, mas recordo-me como se fosse hoje. Era uma realidade completamente diferente da de hoje em dia, felizmente. Na altura, era normal haver rivalidade bastante acentuada entre algumas equipas. Arbitrei num campeonato nacional na Nazaré, e no kickboxing há na mesma prova disciplinas de velocidade (tatami) e de potência (ringue). A verdade é que estava a correr bem e o meu desempenho foi tão bom que me colocaram no único ringue que havia na prova. Logo no primeiro combate, um dos atletas comete várias faltas, consecutivamente, e acaba por ser penalizado até à desclassificação. O treinador não aceita a decisão, entra no ringue e dirige-se a mim a dizer que não percebo nada daquilo e que queria era protagonismo! O treinador do adversário acaba por intervir e aquela situação acaba por despoletar uma cena de pancadaria digna de um filme, envolvendo treinadores, atletas e até espetadores. Hoje em dia, felizmente, situações como esta são muito raras de se ver, sobretudo no kickboxing, e na altura poderia ter-me afastado da modalidade, mas ainda assim, desistir nunca foi opção.
FightNews: Vocês conhecem várias realidades: boxe, kickboxing, Muay Thai... Como é estar “no meio da ação” nessas modalidades? Há diferenças no comportamento dos atletas, na dinâmica dos combates ou até na organização dos eventos?
Sandra Teixeira: Ser árbitro e estar “no meio da ação” em modalidades como boxe, kickboxing ou Muay Thai é uma experiência que, apesar de à primeira vista parecer semelhante, tem bastantes diferenças. Muitas pessoas imaginam que quem vem de uma modalidade automaticamente tem vantagem nas outras, e isso até pode ser verdade no que diz respeito à familiaridade com o ambiente do ringue, por exemplo. Traz um conforto importante e ajuda a lidar melhor com a dinâmica das provas.
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No entanto, e embora o princípio dos desportos de combate seja o mesmo, cada modalidade tem a sua especificidade. Tudo o que envolve o combate muda: as regras, o ritmo do combate, o tipo de público e até a energia do evento. Essas diferenças têm um impacto direto na forma como o árbitro deve agir ou posicionar-se durante o combate. Portanto, estar no meio da ação em cada uma destas modalidades é uma adaptação constante.
Sandra Rocha: Estar no meio da ação é sempre uma adrenalina, cada modalidade tem a sua dinâmica. No boxe, as técnicas são muito rápidas, o combate ocorre a um ritmo alucinante; no kickboxing e no Muay Thai, há mais variedade de golpes, o que exige decisões rápidas e muita atenção. Os atletas também têm comportamentos diferentes, no Muay Thai, por exemplo, há muito respeito pelas tradições. Já a organização varia conforme a estrutura da modalidade. Adaptar-me a essas diferenças tornou-me uma árbitra mais completa.
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Sara Cordeiro: Arbitrar estas três modalidades acaba por nos fazer comparar muitas coisas. No kickboxing, por exemplo, penso que nesta altura existe uma melhor organização de eventos. No entanto, penso que o boxe está mais bem estruturado em duas questões principais: os check-ups médicos nos locais e dias dos eventos e o facto de a pontuação ser eletrónica e estar disponível para os treinadores em tempo real, o que denota uma maior transparência e sentido de responsabilidade dos juízes.
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FightNews: Que tipo de formação ou acompanhamento sentiram falta quando começaram como árbitras? Que apoios seriam úteis para quem está a começar hoje?
Sandra Teixeira: Quando comecei no kickboxing e Muay Thai, as coisas já estavam relativamente bem estruturadas. No entanto, quando comecei no boxe, algum tempo depois, notei que ainda há muita desorganização a nível estrutural, falta de formação, de informação, etc. Quando me convidaram para arbitrar no boxe, não havia cursos de árbitros a serem realizados em Portugal. Na altura, fui a Espanha fazer a formação e isso também me permitiu adquirir outro tipo de conhecimentos logo à partida.
Atualmente, penso que o trabalho está a ser feito. No ano passado, tive a oportunidade de colaborar com a Federação Portuguesa de Boxe na formação de novos árbitros. Foram realizadas três ações de formação em diferentes pontos do país, com bastante adesão da massa feminina. Contudo, penso que é importante manter um acompanhamento mais próximo, sobretudo destes novos árbitros, para que não acabem por desmotivar e sair. É importante sentirem-se acolhidos e integrados.
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Sandra Rocha: Quando comecei, senti falta de mais acompanhamento prático, alguém experiente a orientar, corrigir e dar feedback após os combates. A teoria é importante, mas a prática no ringue é fundamental. Para quem começa hoje, seria muito útil haver mais formações contínuas e sessões de vídeo. Isso daria mais segurança e qualidade desde o início.
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Sara Cordeiro: No meu ponto de vista, não há nada como a prática. Não diria que a prática leva à perfeição, porque somos humanos e estamos sujeitos ao erro, mas é, sem dúvida, o motor para que possamos melhorar as nossas competências. Estar presente, vivenciar, perder o medo, ver combates, ainda que em vídeo, e poder ter a perceção da movimentação dentro do ringue.
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FightNews: Há regras, valores ou práticas de outras modalidades que sentem que deveriam ser mais integradas no boxe? Pode ser em relação ao respeito pela arbitragem, ao papel das mulheres ou à forma como se acolhe quem está a começar.
Sandra Teixeira: Na realidade, acho que os desportos de combate são das modalidades em que há mais fairplay. Isso foi algo que me surpreendeu bastante ao início. Quando comecei no boxe, por exemplo, ainda havia uma ideia muito preconcebida de que era uma “luta de rua”. Atualmente, já não é assim. Os atletas defrontam-se dentro do ringue, mas quando o combate termina, muitas vezes são amigos fora do contexto de competição e isso é bonito de ver. O mesmo acontece com treinadores, dirigentes e árbitros. No que toca às mulheres, a minha experiência foi muito semelhante. Quando comecei, não havia mais mulheres a arbitrar boxe em Portugal, mas isso para mim nunca foi impeditivo. Nunca encarei o facto de ser mulher como um obstáculo, sempre estive focada em dar o meu melhor e mostrar o meu valor. Felizmente, posso dizer que, regra geral, fui sendo bem acolhida e que, com o passar do tempo, sou respeitada pelas minhas competências e pela dedicação que coloco na função que desempenho.
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Sandra Rocha: Acho que o boxe podia aprender muito com outras modalidades na forma como acolhem os árbitros iniciantes. Em algumas modalidades, o respeito pela arbitragem é muito claro e cultivado desde cedo, o que ajuda a criar um ambiente mais profissional e colaborativo. Também acredito que o boxe pode continuar a fortalecer o papel das mulheres, promovendo ainda mais oportunidades e visibilidade, para que cada vez mais mulheres se sintam confiantes para assumir estes papéis.
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Sara Cordeiro: Sem dúvida! Temos muito boas árbitras mulheres, tanto no kickboxing como no Muay Thai. Por exemplo, em Portugal a única pessoa que tem certificação internacional para arbitrar Muay Thai profissional, é uma MULHER com letra grande, a Sandra Teixeira. Que por acaso, também é a única pessoa em Portugal com 1 estrela IBA. Uma vez mais, esse trabalho foi feito por uma MULHER. Somos enormes e as mulheres que estão atualmente na arbitragem do boxe, podem chegar muito longe.
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FightNews: Já se sentiram mais respeitadas num desporto do que noutro? Por exemplo, acham que no Muay Thai ou no kickboxing o lugar da mulher como árbitra está mais consolidado do que no boxe?
Sandra Teixeira: Sempre me senti respeitada no meu papel enquanto árbitra. No entanto, é um facto que, atualmente, no kickboxing e no Muay Thai, existe uma maior representação feminina na arbitragem. A nível nacional, o boxe esteve estagnado durante muitos anos nesse aspeto, mas acredito que o caminho está a ser traçado. Se houver, da parte das entidades competentes, um real interesse em trabalhar essa representatividade, acredito que temos boa matéria-prima, para que isso aconteça. A nível internacional, penso que a realidade é bastante semelhante. Já tive a oportunidade de participar em competições internacionais em todas estas modalidades, mais recentemente no boxe, e, por mais do que uma vez, fui a única mulher a integrar a equipa de arbitragem, nomeadamente em torneios homologados pela IBA, o que, confesso, me surpreendeu bastante.
Sandra Rocha: Sim, já senti diferenças no respeito que recebo em cada modalidade. No Muay Thai e no kickboxing, noto que o papel da mulher como árbitra está, de certa forma, mais consolidado, há uma cultura que valoriza mais a presença feminina e isso torna o ambiente mais acolhedor. No boxe, ainda há muito caminho a percorrer nesse sentido, mas acredito que estamos a avançar e que cada vez mais mulheres estão a conquistar o seu espaço, mostrando competência e determinação.
FightNews: Como é a vossa relação com os atletas e treinadores fora do ringue? Sentem apoio, curiosidade, resistência? Há uma diferença quando percebem que são mulheres?
Sandra Teixeira: Nas outras modalidades, não senti grande diferença. Como referi, quando iniciei o meu percurso na arbitragem no kickboxing e no Muay Thai, já existiam várias figuras femininas, o que facilitou a integração e a aceitação. No boxe, a realidade foi um pouco diferente. No início, era a única mulher, e embora tenha sentido alguma resistência por parte de alguns treinadores mais conservadores, a verdade é que, de uma forma geral, fui muito, muito bem acolhida.
Atualmente, com a presença crescente de mulheres neste meio, penso que esse estigma tem vindo a desaparecer. O ambiente está a mudar, e cada vez mais somos vistas pelo nosso profissionalismo e competência, independentemente do género.
Sandra Rocha: A relação com atletas e treinadores fora do ringue é uma mistura de apoio, curiosidade e, por vezes, alguma resistência. Quando percebem que sou mulher, noto que algumas pessoas ficam um pouco surpreendidas ou até reticentes no início. Mas isso é natural num desporto que ainda está a evoluir nesse aspeto. O que importa é que, com o tempo, através do meu profissionalismo e da minha postura, consigo conquistar o respeito deles. Muitas vezes, essa curiosidade inicial transforma-se em admiração. Para mim, o segredo está em mostrar sempre competência, imparcialidade e paixão pelo que faço, aí o género deixa de ser o foco, e o respeito passa a ser genuíno.
Sara Cordeiro: Quando comecei, há muitos anos, sentia-se mais. Acho que agora, sobretudo no kickboxing e Muay Thai, não acontece tanto. Temos várias mulheres nesta modalidade e penso que já estão familiarizados com a nossa presença.
FightNews: O que vos dá mais prazer em arbitrar um combate? É o foco? A responsabilidade? A justiça? A adrenalina?
Sandra Teixeira: É difícil escolher apenas uma coisa. Arbitrar um combate faz-me sentir viva de uma forma que nunca pensei. O foco total, como se o mundo fora daquelas quatro cordas parasse durante aqueles minutos, a responsabilidade de garantir a integridade dos atletas e o sentimento de justiça. Mas, acima de tudo, o que mais me motiva é saber que estou a desempenhar um papel fundamental num momento importante da vida daqueles atletas. Ser uma peça imparcial e decisiva, garantindo que o combate decorre de forma justa e segura, é algo que me dá um enorme sentido de propósito e realização. Há adrenalina, sim, mas essencialmente, saio com o coração cheio por saber que de alguma forma, fiz a diferença.
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Sandra Rocha: O que mais me motiva é a combinação de várias coisas: o foco absoluto que um combate exige, a responsabilidade de garantir a segurança dos atletas, e claro, a missão de assegurar justiça dentro do ringue.
Há também uma adrenalina muito própria. Aquela tensão positiva de estar num ambiente competitivo, onde tudo acontece muito rápido e cada decisão conta. No entanto, o que me dá mais prazer é sair do ringue com a consciência tranquila de que fiz um bom trabalho, que fui justa e que respeitei o esforço e o mérito dos atletas.
Arbitrar é um papel discreto, mas fundamental. Saber que contribuí para um combate limpo e bem conduzido é, para mim, o verdadeiro sentido desta função.
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Sara Cordeiro: É uma sensação inexplicável: a técnica, a dureza, a adrenalina... É uma sensação incrível. A sensação de saber que está nas nossas mãos fazer com que o combate tenha um desfecho justo para ambos os atletas.
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FightNews: Se pudessem dar um conselho técnico e um conselho humano a uma futura árbitra, quais seriam?
Sandra Teixeira: Tecnicamente, diria que nunca deixem de estudar e nunca percam a vontade de aprender. Isto serve para homens ou mulheres. Quando achamos que atingimos o expoente máximo e não temos mais nada para aprender, é quando cometemos erros. Este é um meio que está em constante evolução e se queremos ser os melhores, temos de estar dispostos a evoluir com ele.
Humanamente, diria que, ainda que por muito bons que possamos ser tecnicamente, nunca podemos perder o nosso lado humano. Porque o lado humano é exatamente o que nos distingue dos demais. Empatia e integridade são os pilares que devemos ter sempre presentes. Ser árbitro é muito mais do que saber regras e regulamentos. Ser árbitro é, sobretudo, saber gerir emoções: as nossas, as dos atletas, dos treinadores, dos familiares. E isso sim, exige muita responsabilidade.
Sandra Rocha: O meu conselho técnico seria: estuda bem as regras, mas acima de tudo, pratica. A experiência no ringue, a capacidade de ler o combate e de tomar decisões rápidas só se ganha com tempo e atenção constante.
E o meu conselho humano seria: acredita em ti, mesmo quando duvidarem. Como mulher, vais sentir que tens de provar mais, mas mantém-te firme, profissional e fiel aos teus valores. O respeito vem com o tempo e com a tua consistência. Não estás sozinha, e o teu lugar no ringue é tão legítimo como o de qualquer outro árbitro.
Sara Cordeiro: Se gostas da modalidade e sentes que aqui pode ser o teu lugar, vem! Estamos cá umas para as outras.
FightNews: Que mudanças concretas gostariam de ver no boxe português nos próximos 3 anos, especialmente para árbitras e treinadoras?
Sandra Teixeira: A nível da igualdade de género, penso que ainda existe muito a fazer, sobretudo a nível nacional. Acho que se tem tentado mudar essa ideologia, mas sem nada muito concreto a nível estrutural.
Uma das coisas que acho que faria sentido, seria criar um departamento, um organismo dentro da estrutura federativa para promover precisamente políticas dedicadas ao desenvolvimento do papel da mulher dentro da modalidade. Além disso, é importante haver um real reconhecimento do trabalho que tem sido efetuado pelas mulheres no boxe.
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Sandra Rocha: Gostava de ver mais oportunidades concretas para árbitras e treinadoras no boxe português, começando por maior representatividade em competições nacionais e internacionais. Mais importante que tudo, uma mudança de mentalidade: deixar de olhar para o género e passar a valorizar a competência. O boxe só tem a ganhar com mais diversidade e igualdade, e isso começa com decisões práticas e coragem para mudar.
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Sara Cordeiro: Gostava que, num futuro próximo, houvesse mais oportunidades de crescimento e reconhecimento do nosso trabalho. Conseguir estar presente em provas fora do país é importante. É fora da nossa zona de conforto que aprendemos e crescemos.
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FightNews: E uma última pergunta pessoal: o que é que aprenderam sobre vocês próprias ao longo deste caminho como árbitras?
Sandra Teixeira: Pessoalmente, aprendi que sou muito mais forte do que imaginava e que com coisas muito simples como cuidado e empatia, podemos efetivamente mudar a vida de outras pessoas, sobretudo dos atletas com quem lidamos e aprendi, sobretudo, que ser árbitro vai muito mais além de saber regras e regulamentos.
Sandra Rocha: Ao longo deste caminho como árbitra, aprendi que sou muito mais resiliente do que pensava. Percebi que consigo manter a calma em momentos de pressão, tomar decisões difíceis com confiança e continuar firme mesmo quando o meu valor é posto em causa. Mas também aprendi a ter mais empatia, com atletas, treinadores e comigo própria. Este percurso ensinou-me a confiar no meu instinto, a crescer com os erros e a nunca desistir de ocupar um espaço que também me pertence. No fundo, ser árbitra fez-me descobrir uma versão mais forte, mais focada e mais verdadeira de mim mesma.
Sara Cordeiro: Aprendi que não devo abdicar nunca de algo que adoro! Acredito que vou conseguir ser melhor a cada dia que passa e que depende de mim, continuar a fazer por isso, ainda que nem sempre seja fácil.
FightNews: Sentem que existe um “estilo feminino” de arbitragem? Há diferenças na forma como homens e mulheres gerem o ringue e, se sim, essas diferenças são respeitadas?
Sandra Teixeira: Não acho que exista propriamente um “estilo feminino” de arbitragem. No entanto, creio que, de uma forma geral, as mulheres conseguem transmitir a sua posição de forma muito clara e assertiva nesta função. Talvez isso se deva, de certa forma, ao perfeccionismo e rigor que muitas mulheres tendem a ter, o que as ajuda a cumprir bem o seu papel.
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Sandra Rocha: Não diria que existe um “estilo feminino” de arbitragem, mas acredito que cada árbitro, homem ou mulher, tem a sua forma de estar no ringue. Algumas mulheres talvez usem uma abordagem mais calma ou mais comunicativa, mas isso não significa menos autoridade. O importante é que haja espaço para diferentes formas de gerir o combate, desde que sejam eficazes, firmes e justas.
Infelizmente, ainda há quem veja essas diferenças com desconfiança, como se só um certo tipo de presença, geralmente mais “masculina”, fosse válida. Mas isso está a mudar. As diferenças devem ser respeitadas, porque enriquecem o desporto. O que importa não é o estilo, é a competência.
FightNews: Já alguma vez sentiram que precisavam “provar mais” por serem mulheres dentro do ringue? Como lidaram com isso?
Sandra Teixeira: Honestamente, quando iniciei no boxe, como era a única, sentia que tinha de estar sempre um passo à frente e ser irrepreensível. Sentia que não podia falhar porque os olhares estavam postos em mim. Mas isso nunca me afetou, muito pelo contrário, encarei isso como um desafio. Se era preciso provar mais, então que fosse. Até porque acredito que quando trabalhas de forma séria, mais cedo ou mais tarde, o reconhecimento chega. E chegou. Hoje, internamente não sinto isso. Contudo, a nível internacional, penso que ainda existe esse preconceito generalizado, sim.
Sandra Rocha: Sim, já senti que tinha de provar mais só por ser mulher. Às vezes, há aquele olhar de dúvida antes do combate começar, como se estivessem a avaliar se “ela vai dar conta”. No início, isso pesava, mas aprendi a transformar essa pressão em motivação. Deixei que o meu trabalho falasse por mim: postura firme, decisões justas e segurança no que faço. Com o tempo, o respeito veio, não por ser mulher ou homem, mas por fazer o meu trabalho.
Sara Cordeiro: No kickboxing nunca senti que tinha que provar nada a ninguém. Como comecei como atleta muito nova, passei por treinadora e agora sou árbitra. Cresci neste ambiente. Os treinadores mais antigos, por exemplo, conhecem-me desde sempre. No boxe, sinto que ainda tenho de provar o meu valor, sim. Não por ser mulher, mas porque cheguei recentemente à modalidade. De qualquer forma, isso não me faz confusão. No final de contas, penso que sendo imparcial e fazendo o que me é proposto, o reconhecimento, ainda que nem sempre seja no momento certo, acaba por surgir.
FighTNews: Já presenciaram situações em que sentiram que a vossa presença fez a diferença: seja para acalmar, mediar ou dar o exemplo?
Sandra Teixeira: Enquanto árbitra, acredito que a nossa presença faz sempre a diferença. Cabe-nos garantir que o combate decorre de forma justa para ambos os atletas e que nenhum é prejudicado deliberadamente. Costumo dizer que o papel do árbitro é melhor desempenhado quanto menos se notar a sua presença, e acredito verdadeiramente nisso. Um árbitro que transmite calma, segurança e serenidade contribui diretamente para que o combate decorra de forma tranquila e equilibrada.
Por outro lado, se a figura central do ringue não consegue manter o controlo, tudo pode descambar muito rapidamente. Já vivi momentos em que, pela postura e energia transmitida, senti que evitei situações de tensão entre atletas ou equipas.
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Sandra Rocha: Sim, já houve momentos em que senti que a minha presença fez a diferença, às vezes só o facto de estar ali, com calma, firmeza e respeito, ajuda a acalmar tensões ou a dar um sinal de equilíbrio. Já tive atletas, inclusive raparigas mais novas, que me disseram que se sentiram inspiradas por me ver no ringue. Nesses momentos percebo que não estou só a arbitrar um combate, estou também a abrir caminho e a mostrar que há espaço para todas e todos no desporto.
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Sara Cordeiro: Num combate não há tempo para dúvidas ou hesitações. Fazemos aquilo para que estamos mecanizadas. Sabemos as regras e temos de ser capazes de as executar eficientemente. Por vezes, falhamos, é normal, somos humanos, e não há ninguém que seja perfeito. Pessoalmente, posso dizer que sou a minha maior crítica. Entre nós, falamos muito umas com as outras depois dos eventos, esmiuçamos cada detalhe, o que poderíamos ter feito de maneira diferente, mas acima de tudo somos amigas e honestas umas com as outras. Damos sempre opiniões sinceras, sem nos julgarmos e com isso podemos crescer juntas. É muito bom sentir que existe uma rede de apoio.
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FightNews: Como lidam com a pressão e a responsabilidade de tomar decisões rápidas em combates intensos? Têm estratégias mentais? Técnicas de concentração?
Sandra Teixeira: A pressão faz parte do papel do árbitro. É uma função que está sujeita ao escrutínio público, seja em que modalidade for. A realidade é que temos de tomar decisões que podem mudar completamente o rumo de um combate, em frações de segundos. Se o fizermos da forma correta, ninguém nota, no entanto, se cometermos um erro, rapidamente temos os dedos apontados para nós.
Com o tempo e a experiência que vamos adquirindo, as coisas fluem muito mais naturalmente, ainda assim, acho que é essencial termos presente a ideia de que somos humanos e que por muito que possamos estar preparados tecnicamente, podemos falhar. Aprender a lidar com isso é muito importante também. Pessoalmente, antes de entrar no ringue tento sempre recapitular mentalmente as regras principais que tenho de ter em consideração, número limite de contagens, por exemplo, e abstrair-me ao máximo de fatores externos. Durante aqueles minutos sou só eu e aqueles dois atletas.
Sandra Rocha: Lidar com a pressão faz parte do papel. Em combates intensos, foco e calma são tudo. Para mim, a chave está na preparação: conhecer bem as regras, estar atenta desde o primeiro segundo. Uso estratégias simples: respiração controlada, manter o olhar sempre ativo e bloquear tudo o que está fora do ringue. Quando estou lá dentro, entro num modo de concentração total. A experiência também ajuda: quanto mais arbitras, mais natural se torna decidir com rapidez e segurança.
Sara Cordeiro: Eu trabalho num shopping. Tenho horários rotativos e apenas um fim de semana livre em cada mês. Por vezes, tenho de escolher entre estar com os meus filhos, por exemplo, para conseguir arbitrar. Mas eles conseguem ver e sentir que isto me faz tão bem, e entendem. Ir arbitrar, ainda que possa parecer irónico, permite-me descontrair do caos do dia a dia. Fazemos amizades verdadeiras, conhecemos novas pessoas, é incrível.
FightNews: Como conciliam esta paixão com a vossa vida profissional e pessoal? O que sacrificam e o que ganham?
Sandra Teixeira: Conciliar a arbitragem com a vida profissional e familiar nem sempre é fácil, e torna-se ainda mais desafiante quando estamos a construir carreira em várias modalidades em simultâneo, como é o nosso caso. É preciso fazer escolhas. São muitos fins de semana fora de casa, e há momentos em que não consigo estar presente em atividades dos meus filhos, por exemplo, por já ter assumido compromissos em eventos.
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Tento gerir tudo da melhor forma possível, mas sei que, por vezes, não consigo estar onde gostava. Ainda assim, o prazer que sinto ao arbitrar é imenso. Quando entro no ringue, sinto verdadeiramente que aquele é o meu lugar e que posso fazer a diferença ao contribuir para algo maior. É esse sentimento que também tento levar para casa e transmitir à minha família, especialmente à minha filha, que hoje já começa a compreender melhor a importância do que faço. No fundo, acredito que, ao seguir esta minha paixão, também lhe estou a dar um exemplo de coragem e determinação.
Sandra Rocha: Conciliar não é fácil. Muitas vezes sacrifico fins de semana, tempo com a família e descanso. Há treinos, deslocações, horas no ringue, tudo por paixão. Mas o que ganho compensa: a adrenalina, o crescimento pessoal, o orgulho de representar a arbitragem e, acima de tudo, a sensação de estar a fazer parte de algo maior. Aprendi a gerir melhor o meu tempo e a rodear-me de pessoas que respeitam e apoiam esta escolha. Porque quem ama isto, sabe que não é só um hobby, é um compromisso.
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Sara Cordeiro: Honestamente, sinto que estou rodeada por um grupo coeso e honesto. Isso é muito, muito importante. Sempre ouvi dizer que nos devemos rodear de pessoas incríveis para crescer.
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FightNews: Já viveram momentos de solidariedade entre árbitras mulheres? Sentem-se apoiadas por outras colegas ou, pelo contrário, muitas vezes ainda estão sozinhas?
Sandra Teixeira: Acho que temos feito um caminho bonito, sinceramente. No nosso caso, posso dizer que conseguimos criar um grupo que se tem vindo a tornar mais coeso a cada dia que passa. Apoiamo-nos umas às outras e crescemos juntas. Quando comecei no kickboxing, por exemplo, a Sara já arbitrava. Logo nas primeiras provas em que estive como estagiária, ficámos juntas e a conexão foi imediata. Hoje em dia, mais do que colegas de arbitragem, somos amigas, e isso deixa-me mesmo muito feliz.
No boxe, a experiência foi diferente. Como comecei antes, tive a oportunidade de dar formação a outras mulheres, e tenho imenso gosto em poder passar todo o conhecimento que fui adquirindo ao longo do tempo. Como já referi, durante muito tempo fui a única mulher neste meio, no entanto, nunca vi a chegada delas como concorrência, muito pelo contrário. São pessoas muito válidas, com um papel importante, que vêm acrescentar qualidade à modalidade. E a verdade é que o trabalho que têm vindo a desenvolver já se começa a notar, o que me deixa profundamente orgulhosa.
Genericamente, penso que é isso: as mulheres devem apoiar-se mais umas às outras e deixar de se ver como uma ameaça. Quando percebermos que juntas somos mais fortes, vamos ser capazes de fazer coisas incríveis.
Sandra Rocha: Há uma empatia natural, porque sabemos exatamente o que cada uma enfrenta, desde as dúvidas ao esforço para sermos levadas a sério. Mas também é verdade que, por sermos ainda poucas, às vezes sentimo-nos sozinhas, especialmente em ambientes mais dominados por homens. Por isso, valorizo muito cada gesto de apoio entre colegas, mesmo uma troca de palavras antes de um combate pode dar força. O caminho fica sempre mais leve quando caminhamos juntas.
Sara Cordeiro: Que saibam que estamos lá para os proteger, e que sabemos o que estamos a fazer.
FightNews: Existe algo que gostariam que os atletas percebessem melhor sobre o papel de um árbitro?
Sandra Teixeira: Gostava que os atletas percebessem que o árbitro está ali a desempenhar uma função e não está contra ninguém, muito pelo contrário. Enquanto árbitros, a nossa principal missão é garantir a proteção dos atletas e assegurar que o combate decorre da forma mais justa possível. Ainda que, por vezes, tenhamos de tomar decisões difíceis, que nem sempre são bem recebidas.
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Entendo que, no calor do momento, não seja fácil aceitar certas decisões. Mas para nós também nem sempre é simples, sobretudo quando, ao longo do tempo, nos vamos cruzando com os mesmos atletas, vemos a sua evolução e acabamos, inevitavelmente, por criar alguma afinidade. Ainda assim, temos de saber deixar as emoções de lado e cumprir o nosso papel com a maior clareza e imparcialidade possível.
Acho também que os treinadores têm um papel importante neste processo: o de ajudar a passar aos atletas a mensagem de que o árbitro não é “o vilão”, mas sim alguém que está ali a fazer o seu trabalho, tal como cada um deles.
Sandra Rocha: Gostava que os atletas percebessem que o árbitro está ali para os proteger, não para os “prejudicar”. As decisões são tomadas em segundos, com base no que vemos, e sempre com o objetivo de garantir a segurança, o respeito pelas regras e a justiça do combate. Não estamos contra ninguém, estamos pelo desporto. E quanto mais houver esse entendimento mútuo, melhor é o ambiente no ringue para todos.
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Sara Cordeiro: Com trabalho e dedicação, acho que é uma questão de tempo até que percebam que somos uma mais-valia. Basta que nos permitam que possamos mostrar o nosso trabalho e do que somos capazes.
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FightNews: Que tipo de reconhecimento ou valorização sentem que ainda está em falta no vosso trabalho? É visibilidade, é formação, é voz em decisões institucionais?
Sandra Teixeira: Acho que ainda falta um pouco de tudo: visibilidade, formação e, principalmente, voz nas decisões institucionais. Muitas vezes, o trabalho do árbitro é visto como algo “secundário”, quase invisível, quando na verdade é uma peça central na estrutura da modalidade. Sem arbitragem, não há combate. E sem qualidade na arbitragem, não há evolução no desporto, seja ele qual for.
É necessário haver um verdadeiro investimento na formação contínua dos árbitros, na sua valorização enquanto agentes ativos da modalidade, e sobretudo permitir que a nossa voz seja ouvida, sobretudo quando se trata de decisões que afetam diretamente o nosso trabalho dentro do ringue.
A visibilidade também é algo muito importante. Mostrar o nosso trabalho, dar a conhecer os rostos por trás da função, é crucial. No caso das mulheres, essa visibilidade é ainda mais importante, pois irá ajudar a que outras mulheres se sintam inspiradas e queiram seguir este caminho.
Sandra Rocha: Ainda sinto que falta reconhecimento em vários aspetos. A visibilidade é fundamental, precisamos de ser mais vistas e ouvidas, não só como árbitras, mas como parte ativa no desenvolvimento do boxe. Também é importante investir mais em formação contínua e especializada para nos prepararmos melhor. E, claro, ter voz nas decisões institucionais seria um grande passo para garantir que as nossas necessidades e perspetivas sejam realmente consideradas. Só assim o trabalho da arbitragem, especialmente o feminino, pode crescer de forma sustentável.