
A paixão pelo Kempo nasceu de forma quase natural, mas o trabalho de Erica Aleixo vai muito além do tatami. Treinadora na UDCAS, licenciada em Reabilitação Psicomotora, dedica-se também ao desporto adaptado para pessoas com necessidades especiais, especialmente crianças com Perturbação do Espetro do Autismo, e ao apoio escolar. Nesta conversa, fala-nos sobre a sua ligação ao desporto, os valores que transmite, os desafios que enfrenta e o impacto transformador que vê no dia a dia.

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FightNews: Como começou a tua ligação ao Kempo e ao desporto em geral?
Sempre fiz desporto, desde dança a hóquei em patins, mas aquele desporto que me prendeu foi o Kempo. Conheci o Kempo pela minha irmã, que foi a primeira a praticar, e ver as competições e a garra sempre foi algo que me impressionou. Com o empurrão do Nuno, lá fui experimentar… e cá estou, e hei de estar.
FightNews: O que te motivou a tornar-te treinadora, especialmente com crianças?
Ensinar é algo que me fascina. Sempre gostei e sempre foi a área onde me imaginava a trabalhar, principalmente se fosse com crianças. Como aprender não ocupa espaço e o Kempo foi algo que sempre me ajudou e me ensinou, decidi juntar o útil ao agradável e começar a minha jornada a partir daí.
Imagem cedida Erica Aleixo
FightNews: Quais são os principais valores que procuras transmitir aos teus alunos no Kempo?
Acima de tudo, o respeito pelo outro. É fundamental, especialmente nestas camadas mais jovens. É um dever e um direito na aula: ouvir e ser ouvido, logo, respeitar e ser respeitado.
FightNews: Como surgiu o teu envolvimento profissional com crianças com autismo e necessidades especiais?
Tendo tirado uma licenciatura em Reabilitação Psicomotora, ouvi várias vezes falar sobre Perturbação do Espetro do Autismo e tantas outras necessidades especiais. Mas o meu primeiro contacto foi numa colónia de férias inclusiva. Ao longo da colónia, senti que era neste mundo que queria trabalhar e onde podia fazer a diferença.
Imagem cedida Erica Aleixo
FightNews: Que estratégias utilizas para adaptar as aulas às necessidades de cada criança?
Cada criança é uma criança, ou seja, todas são diferentes. A base está em conhecer e estabelecer uma boa relação com cada uma — é logo meio caminho andado para que tudo flua. Mas penso que as minhas estratégias base são mesmo as ajudas visuais e verbais, instruções simples e muito feedback positivo (nunca é demais motivar!).
FightNews: Que tipo de impacto tens sentido que o desporto, e em particular o Kempo, tem nestas crianças?
O desporto vai muito além do aprender técnicas de combate, como fazemos no Kempo. O propósito é ganhar bagagem para tudo: desde coordenação motora e equilíbrio a ferramentas para lidar com a frustração, tudo isto através da aprendizagem específica de cada modalidade.
Além disso, é possível trabalhar tanta coisa com um dos exercícios mais básicos. Por exemplo, ensinar um direto pode promover o contacto ocular, a comunicação, a capacidade de imitação, seguir instruções, o controlo motor, a noção corporal e muito mais. Sem dúvida que tem um impacto positivo.
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FightNews: Quais são os principais desafios no acompanhamento destas crianças e como os superas?
Um dos principais desafios é lidar com diferentes ritmos de aprendizagem, níveis de motivação e contextos familiares. Para superar isso, procuro criar um ambiente de confiança, adaptar métodos às necessidades individuais e manter uma comunicação aberta com as famílias.
Acredito que a chave está em ouvir, compreender e ajustar a abordagem, transformando cada obstáculo numa oportunidade de crescimento para a criança — generalizando sempre para qualquer criança, tenha ou não necessidades especiais.
FightNews: Para além do treino físico, também estás envolvida no apoio escolar. Como concilias estas áreas?
Gosto muito de fazer diferentes coisas e de ter conhecimento em várias áreas. A minha profissão também me permite isso. De manhã, faço essencialmente apoio escolar e, à tarde, estou mais centrada no desporto. São duas áreas diferentes, mas que se conciliam, mesmo parecendo que não.
FightNews: De que forma a tua experiência como treinadora influencia a tua abordagem no apoio educativo?
A minha experiência como treinadora influencia positivamente a minha abordagem no apoio educativo, pois trouxe-me competências como motivar, criar disciplina, adaptar estratégias ao ritmo individual e liderar com empatia.
Por outro lado, o trabalho no apoio educativo também reforça o meu papel como treinadora, ajudando-me a comunicar de forma mais clara, a compreender diferentes formas de aprendizagem e a desenvolver persistência e capacidade de escuta.
Imagem cedida Erica Aleixo
FightNews: Que impacto pessoal tem tido para ti este trabalho tão multifacetado?
Este trabalho tem sido extremamente enriquecedor a nível pessoal. Tem-me ajudado a desenvolver maior capacidade de adaptação, resiliência e empatia, ao lidar com diferentes contextos e necessidades. Além disso, permite-me crescer continuamente, aprender com cada desafio e sentir um profundo sentido de realização por poder contribuir para o desenvolvimento dos outros e de todas as crianças que tenho o privilégio de acompanhar.
FightNews: Por fim, que mensagem gostarias de deixar a pais e encarregados de educação sobre o papel do desporto no desenvolvimento das crianças?
O desporto é para todos e deve ser vivido por todos. Mais do que desenvolver capacidades físicas, ensina valores como respeito, inclusão, disciplina, resiliência e espírito de equipa. Quando os pais incentivam a prática desportiva, estão a abrir portas para que cada criança, independentemente das suas capacidades ou contexto, descubra o seu potencial, ganhe confiança e leve para a vida aprendizagens que vão muito além do treino.
Imagem cedida Erica Aleixo