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As mulheres podem — e devem — estar no centro do ringue
Árbitra de Boxe e apaixonada pela modalidade, Dora Madaleno conta como o desporto marcou gerações da sua família e como, com coragem e foco, conquistou o seu lugar num mundo ainda marcado por preconceitos de género.
30/07/2025 11h20 Atualizada há 12 meses
Por: Redação Fonte: Miriam Rautenberg
Miriam Rautenberg

A presença de Dora Madaleno no ringue é discreta, mas firme. Árbitra de Boxe, mulher numa função ainda maioritariamente masculina, Dora traz no seu percurso uma história marcada por tradição, superação e paixão. O Boxe corre-lhe no sangue há cinco gerações e hoje representa não só a continuidade dessa herança familiar, mas também o avanço de um desporto que se abre, cada vez mais, ao talento feminino. Em entrevista, fala com honestidade sobre a sua vivência, os desafios enfrentados e as alegrias que retira da função que desempenha com orgulho.

Imagem cedida Dora Madaleno

“Fui criada dentro desta atmosfera”

FightNews: Como começou a sua relação com o Boxe? Lembra-se do primeiro contacto com o desporto?

O meu contacto com o Boxe começou desde a minha infância. Cresci a ver o meu pai a treinar e a competir. Fui criada dentro desta atmosfera. A memória mais antiga que tenho desta magnífica arte remonta à época em que o meu pai combatia em grandiosas galas de Boxe no Coliseu dos Recreios, em Lisboa. Eu e a minha irmã íamos apoiá-lo. Assim que o gongo final soava, o meu pai vinha buscar-nos à plateia e elevava-nos ao ringue. Tempos deliciosos e prazerosos de recordar. Eram galas fantásticas, com o Coliseu cheio, com 4000 a 5000 pessoas — um verdadeiro espetáculo.
A história do Boxe tem raízes profundas na minha família. Começou com o meu bisavô paterno, que já combatia. Ele ensinou o meu avô, o meu avô ensinou o meu pai, que depois ensinou os filhos e, por fim, os netos. São cinco gerações de pugilistas.

Imagem cedida Dora Madaleno

“Foi uma escolha natural”

FightNews: O que a levou a tornar-se árbitra? Foi uma escolha natural ou surgiu por acaso?

Como fui criada no meio do Boxe, foi efetivamente natural. Nos anos 70, 80 e 90 nem se equacionava uma mulher aspirar ser árbitra em Portugal. A oportunidade surgiu naturalmente e eu perguntei-me: por que não? E segui em frente.

“Estar a arbitrar é completamente diferente de estar a ver”

FightNews: Como foi o seu percurso até se tornar árbitra oficial? Houve alguém que a incentivou ou inspirou?

A minha grande inspiração foi — e é — o meu pai. Ele foi um grande atleta e hoje é treinador, incentivando inúmeros jovens, adultos e seniores, incluindo elementos da nossa família. Um deles tornou-se um grande atleta, abriu um ginásio e também se tornou treinador.
Sempre estive no terreno do Boxe. Arbitrei muitos combates de Norte a Sul do país e ganhei bastante experiência. Ver um combate é uma coisa; arbitrar é outra. A responsabilidade é imensa. Temos dois atletas com a “vida” entregue nas nossas mãos durante aqueles três assaltos.
Tive a oportunidade de fazer um curso da IBA de árbitros em Espanha (nível uma estrela). Não fui selecionada para a certificação final, mas trouxe muita aprendizagem e gostei imenso. Como árbitra, o meu compromisso é dar sempre o meu melhor.

Imagem cedida Dora Madaleno

“A maior dificuldade foi ver atletas a cometer faltas continuamente”

FightNews: Quais foram as maiores dificuldades no início — tanto a nível técnico como pessoal?

Ora bem, existem aqui vários esclarecimentos, como já mencionado. Estar a ver um combate é uma coisa, estar a arbitrar é outra. Tive de me adaptar à constante alteração de dinâmicas no decorrer de um combate.

A minha maior dificuldade foi ver, no início, os atletas cometerem várias faltas continuamente, e ter de criar uma adaptação específica dentro do ringue, dentro do que se aprende, tentando sempre fazer o melhor para que o combate corra da melhor forma.

Por vezes, noto alguma falta de instrução sobre as regras básicas do boxe, e é fundamental que os atletas aprendam não só como praticar boxe, mas também as suas regras, para que os combates fluam melhor e para que os atletas se sintam mais preparados e não cometam erros desnecessários — como, por exemplo, não saber quando e em que circunstâncias se devem dirigir ao canto neutro.

As adaptações são necessárias — e com uma certa constância — para os árbitros, porque, por vezes, as regras alteram-se.

Imagem cedida Dora Madaleno

“O mais marcante foi um combate internacional em Espanha”

FightNews: Quais foram os momentos mais positivos até agora na sua trajetória? Há alguma situação marcante que recorde com orgulho?

Os momentos mais positivos, para mim, são sempre todos os combates que faço, que corram bem, e tento sempre fazer o meu melhor de alguma forma. Por vezes, tenho algumas pessoas, e até treinadores, a parabenizar-me por ter executado um bom trabalho — isso, para mim, já é o suficiente.

Um momento mais marcante que tive foi no Boxe Internacional, quando fui fazer o curso de Árbitros da IBA, em Espanha, para uma estrela, onde arbitrei o combate entre Espanha e Cazaquistão.

Pelas regras da IBA, segundo eles, nós, árbitros, temos nas mãos a escolha de verificar se o atleta está em condições de continuar o combate — é uma decisão a tomar em ringue, dependendo dos golpes aplicados.

Logo no primeiro assalto, o atleta de Espanha deu um golpe em que o do Cazaquistão caiu. Faço a contagem e verifico sempre a integridade física do atleta, e vi que ele estava apto a continuar o combate — e assim o fiz. Segui a regra, jogaram os 3 assaltos, e o atleta do Cazaquistão acabou por ganhar, por mérito.

Ao descer do ringue, levei um raspanete de um dos diretores da prova — espanhol — que afirmou que não deveria ter dado seguimento ao combate, que este deveria ter terminado logo nesse golpe. Como deixei seguir, por ter verificado que o atleta estava bem para continuar, no final confirmou-se que ele ganhou e evidenciou-se que a minha decisão foi a correta.

Não podemos agradar a todos. E isso deixou-me orgulhosa pelo atleta.

Imagem cedida Dora Madaleno

“Hoje já não noto grande diferença por ser mulher — mas nem sempre foi assim”

FightNews: Já teve experiências difíceis como árbitra, por ser mulher? Como lidou com isso?

As experiências menos boas normalmente vêm quase sempre dos treinadores menos satisfeitos. Ninguém gosta de perder, e no boxe só um pode ganhar. Mas nós, árbitros, como em todas as modalidades que envolvem arbitragens, já sabemos que não podemos deixar que isso nos influencie.

O facto de ser mulher tinha mais relevância há 6 ou 7 anos atrás — era mais notória uma certa insensibilidade e falta de empatia por parte de algumas pessoas aleatórias. Mas agora já não noto tanto.

O boxe é uma modalidade de força e resistência. Se formos à nossa história, verificamos que sempre existiram certas dualidades entre o homem e a mulher. Parecendo que não, certos homens ainda se podem sentir um pouco intimidados, mas isso não faz com que as mulheres de hoje em dia se sintam diminuídas.

Cada pessoa é uma história, e cada mulher deve sentir orgulho pelas suas capacidades.

Imagem cedida Dora Madaleno

“Aprendi a lidar com o julgamento do público”

FightNews: O que aprendeu sobre si mesma desde que começou a arbitrar?

Primeiro, tive de aprender a lidar com o facto de estar a ser avaliada por um público extenso, o que era algo impensável no meu passado.

Existia o pensamento: “Será que vou fazer bem?”. São sempre questões de pensamentos intrusivos que temos de gerir enquanto nos enquadramos no meio.

Mas, por ora, sinto-me à vontade, sem pensar no que vão dizer sobre o meu trabalho. Gosto de ouvir os meus colegas ou pessoas com uma certa experiência na arbitragem, para melhorar a cada etapa que se sucede.

Imagem cedida Dora Madaleno

“O Boxe deu-me disciplina e respeito”

FightNews: Como esta função impacta a sua vida fora do Boxe — no trabalho, vida pessoal, ou na forma de estar no mundo?

Acaba por ser uma pergunta engraçada, porque quando alguém me pergunta o que faço e menciono que o meu segundo trabalho é o boxe, vejo na cara das pessoas uma grande admiração e, por vezes, voltam a perguntar — ao que saem sempre sorrisos.

Como mencionei noutra pergunta, o boxe é visto como uma modalidade masculina, de força e resistência. As mulheres nunca foram vistas nestes modelos e, por isso, ficam admiradas.

São dogmas criados pelos nossos antepassados, os quais hoje já se comprova que qualquer mulher pode fazer o que um homem faz.

Eu trabalho por conta própria, com uma agenda semanal. Não tenho nenhum impacto relevante com qualquer outra coisa que possa fazer, por isso é-me fácil gerir, tanto a nível pessoal como no trabalho.

Devo acrescentar que agradeço muita coisa ao boxe — como disciplina, respeitar o outro e ver as adversidades, respeitando-as. Como mencionei, eu cresci no boxe, e muito devo ao meu pai, que trouxe o boxe para dentro de casa.

– Obrigado, meu querido pai.

Imagem cedida Dora Madaleno

“A preparação mental é a mais importante”

FightNews: Que tipo de preparação considera mais importante para um/uma árbitro(a)? Técnica, mental ou física?

Estar preparado mentalmente. Ser árbitro tem o que se lhe diga — existem muitas regras na arbitragem. É um jogo extremamente rápido que requer uma atenção enorme, sendo que temos imensos holofotes em cima de nós.

A possibilidade de não vermos alguns golpes é latente, e por isso existem os “juízes” — árbitros em torno do ringue — para garantir uma melhor visão. Por isso, o mental tem de ir bem preparado para focar toda a atenção no jogo.

O físico também é importante, pois se não soubermos andar no ringue, não há como fazer uma boa arbitragem.

Uma das coisas que se aprende no Curso da IBA é a postura em ringue — temos de ser um pião com classe.

Imagem cedida Dora Madaleno

“Somos poucas, mas acredito que mais virão”

FightNews: Qual a sua opinião sobre o número atual de árbitras em Portugal? O que poderia ser feito para termos mais mulheres nesta função?

Aqui em Lisboa, como árbitras, somos muito poucas — contam-se pelos dedos. Não tenho ideia de quantas mulheres existem no total, mas já trabalhei com algumas.

A meu ver, nem todas as mulheres se enquadram neste papel, por vários factores. O principal motivo é acharem que é um desporto “agressivo”, mas creio que, com o tempo, e se vierem dos treinos, terão com certeza outra visão.

Imagem cedida Dora Madaleno

FightNews: Que tipo de apoio (formação, redes, visibilidade…) considera essencial para incentivar outras mulheres a seguir este caminho?

O Boxe é visto, no meio feminino, como um desporto bruto e agressivo. Enquanto isto não for desconstruído, pouco a pouco, as mulheres irão sempre achar que o Boxe é só para homens. A mensagem tem de ser transmitida de forma a clarificar que o Boxe é para todos, e que vai muito além de ser agressivo e bruto. Ainda há algum trabalho a fazer na clarificação desta nobre arte.

O Boxe não é só para homens, ou seja, quantas mais mulheres entrarem no Boxe, mais outras entrarão. O Boxe, quando presenciado e com base nos testemunhos, encoraja à experiência.

Na minha opinião, cada associação, nas suas respetivas regiões, devia divulgar mais e oferecer mais incentivos — como, por exemplo, em escolas, bairros sociais, etc. Para assim atingir mais praticantes e mais público.

Podem ser feitas coisas como: treinos ao ar livre, melhorar as condições dos ginásios onde se pratica Boxe e, ao mesmo tempo, apostar no marketing e em dinâmicas virtuais através das redes sociais. E, na minha opinião, deviam existir mais galas de Boxe, para que a modalidade seja mais vista e recordada.

FightNews: Vê diferença na forma como atletas mulheres reagem quando são arbitradas por mulheres?

As mulheres são umas queridas, nunca tive situações desagradáveis com nenhuma atleta — muito pelo contrário, é um prazer arbitrar um combate de mulheres. Eu, pessoalmente, sei o esforço que uma atleta de Boxe tem de fazer, e admiro muito o trabalho de cada uma.

Imagem cedida Dora Madaleno

FightNews: Que visão tem para o futuro do Boxe feminino e da arbitragem em Portugal?

Se houver mais adesão por parte das mulheres e mais divulgação, acredito que possamos ser mais. Mas, neste momento, creio que ainda existe muito a fazer. Não é um público fácil. Como mencionei, o Boxe ainda é visto, no seio da nossa sociedade, como força e agressividade. Será sempre um grupo mais restrito — mas a divulgação é tudo.

FightNews: Que conselhos daria a uma jovem que queira entrar neste mundo, mas que ainda tenha receios?

Bem, sempre que me pedem um conselho, será sempre este: “Experimentem, porque vão gostar.”

O Boxe em treino é uma coisa; em competição é outra. A quem quiser apenas treinar, há muitos, muitos benefícios — além de criar mais autoestima na própria mulher, desenvolve disciplina, queima gordura, aumenta a resistência e alivia o stress.

“Experimentem” — este será sempre o meu conselho.

FightNews: E para as mulheres que nunca pensaram no Boxe como “um espaço para elas” — o que gostaria de dizer?

Diria exatamente o mesmo que digo sempre: é preciso dar uma oportunidade e experimentar.

O Boxe dá pulso, dá força, dá autoestima, ajuda em todos os sectores metabólicos do corpo. Não é só para homens, como nos fizeram acreditar durante muito tempo. É para todos — e, com certeza, vão gostar.