O karaté português vive um dos seus momentos mais marcantes com a conquista do segundo lugar no Campeonato da Europa, em kata por equipas femininas. Entre as protagonistas deste feito está Ana Sofia Cruz, atleta de alto rendimento que, com determinação e resiliência, tem ajudado a escrever a história da modalidade em Portugal.
Nesta entrevista exclusiva, Ana Cruz partilha as emoções de um feito inédito, fala da importância do apoio ao desporto de elite e lança um apelo por maior responsabilidade das instituições no acompanhamento dos atletas seniores.
FightNews: Ana, em primeiro lugar, parabéns por esta conquista! Qual foi a sensação de subires ao pódio e veres Portugal no segundo lugar da Europa?
Levar Portugal ao pódio num Campeonato da Europa é um objetivo de carreira para qualquer atleta nacional. Infelizmente, ainda são raros os resultados deste nível no escalão sénior (absoluto), o que torna este feito ainda mais especial. Colocar Portugal numa final europeia, pela primeira vez em 60 edições, é um orgulho que não cabe no peito. É, sem dúvida, o melhor resultado de sempre na história do karaté português.
A subida ao pódio foi um verdadeiro turbilhão de emoções. Sabemos que temos capacidade e potencial para alcançar o lugar mais alto, e foi por isso que lutámos com todas as forças. Sonhámos com o ouro, trabalhámos para ele, e embora ainda não tenha sido desta, este segundo lugar é um marco histórico que nos enche de orgulho.
FightNews: O que representa para ti, enquanto atleta de alto rendimento, alcançar um resultado desta dimensão no Campeonato Europeu?
Este resultado representa muito mais do que uma medalha. É a concretização de anos de trabalho, sacrifício e resiliência. Como atleta de alto rendimento, sei que os grandes feitos não acontecem de um dia para o outro — o trabalho das seleções nacionais deve continuar a ser pensado a médio e longo prazo, com visão, consistência e dedicação.
Este pódio é o reflexo do meu compromisso com o Alto Rendimento, do espírito de sacrifício e, acima de tudo, da minha determinação em nunca desistir, mesmo perante as maiores adversidades. É um orgulho imenso escrever história por Portugal e mostrar que o nosso país tem lugar entre os melhores da Europa.
O meu lema é, e sempre será: Elevar Portugal! Cada treino, cada eliminatória e cada conquista têm esse propósito.
FightNews: A vossa prestação foi elogiada pela elevada qualidade técnica e espírito de equipa. Qual consideras ter sido o principal fator para este sucesso coletivo?
Acredito que o principal fator para o nosso sucesso coletivo foi termos uma liderança que entende profundamente o que é necessário para competir ao mais alto nível. O nosso treinador pessoal e selecionador nacional, Jorge Peixeiro, tem um papel absolutamente determinante. Ele sabe exatamente como potenciar o melhor de cada uma de nós, tanto individualmente como no contexto coletivo. Esse conhecimento e sensibilidade têm feito toda a diferença, não só no dia da competição, mas também no trabalho diário, nos treinos, onde tudo começa.
Outro pilar fundamental é a equipa multidisciplinar que temos à nossa volta — composta por profissionais que contribuem para o nosso rendimento físico, mental e emocional. Esta estrutura tem sido essencial para garantir que estamos sempre preparadas ao mais alto nível.
Por fim, considero que a minha experiência enquanto atleta mais velha e com mais anos nas seleções nacionais — já com medalhas também em equipas — tem trazido uma estabilidade importante ao grupo. Tento usar essa bagagem para ajudar a fortalecer os pontos fortes de cada uma de nós e consolidar a união e confiança que temos enquanto equipa.
FightNews: Como avalias a importância desta medalha para o karaté nacional e, em particular, para o karaté feminino em Portugal?
Esta medalha é um marco muito importante para o karaté nacional e, em especial, para o kata. Representa não só o culminar do nosso esforço, mas também a continuidade de um historial de excelência no kata em Portugal, particularmente nas equipas das seleções nacionais, que têm vindo a alcançar resultados consistentes nos últimos anos.
Este resultado reforça que Portugal tem um enorme potencial desportivo e que está pronto para competir ao mais alto nível europeu e mundial. No entanto, também vem trazer uma reflexão necessária sobre a realidade que vivemos.
Acredito que os sucessivos resultados desta equipa de kata feminina devem traduzir-se em mais responsabilidade por parte das instituições governamentais, federativas e dos clubes. É fundamental que se promovam e reforcem os apoios aos atletas e treinadores envolvidos no Alto Rendimento. Sentimo-nos muitas vezes em desvantagem por competirmos contra atletas de países que têm estatuto profissional ou que recebem rendimentos vitalícios por representarem as suas nações ao mais alto nível.
Portugal precisa, com urgência, de criar uma estrutura sólida de apoio aos atletas seniores. Só assim poderemos garantir que continuamos a ser competitivos no escalão absoluto a nível internacional e que o nosso talento não se perde por falta de condições.
FightNews: Quais são agora os teus próximos objetivos, tanto a nível individual como com a seleção nacional?
Quando se alcança a seleção nacional, os objetivos pessoais passam naturalmente para outros planos. A partir daí, tudo gira em torno do compromisso com o país. Representar Portugal e elevar a nossa bandeira é, sem dúvida, o objetivo maior — é por isso que treinamos, competimos e nos superamos todos os dias.
Neste momento, estamos focados na qualificação para o Campeonato do Mundo. Pela primeira vez, enfrentamos uma corrida por pontos que definirá quem marca presença neste evento de referência mundial. É uma fase exigente para o karaté português, mas acreditamos que é possível colocar Portugal neste Campeonato do Mundo.
FightNews: Por fim, que mensagem gostarias de deixar aos teus treinadores, colegas de equipa, família, federação e a todos os que te apoiaram neste percurso?
Em primeiro lugar, quero agradecer à minha mãe e aos meus treinadores e mestres, que tiveram um papel fundamental nesta história de sucesso. Estarei eternamente grata pelos valores que me transmitiram — não só na educação, mas também através do melhor que esta arte marcial tem para oferecer. A resiliência, a disciplina e o espírito de sacrifício são pilares que carrego comigo e que acredito serem essenciais para formar não só atletas, mas também pessoas. São estes os valores que devemos continuar a cultivar e a transmitir às gerações mais jovens.
Quero também deixar uma palavra de profundo reconhecimento às minhas colegas de equipa, colegas de treino, à federação e a todos os portugueses que se revêm em nós e que se orgulham desta nação e dos seus representantes. Somos mais do que a soma das partes — é precisamente essa união que nos torna fortes. Foi assim que nos tornámos vice-campeãs do mundo e vice-campeãs da Europa.
Obrigada, Equipa, por me mostrarem que a solidariedade, o espírito de entreajuda e a tolerância nos tornam verdadeiramente invencíveis.