Figura importante do boxe português, Jorge “Gentleman” Silva é mais do que um ex-atleta — é um verdadeiro defensor da modalidade. Com uma carreira de 25 anos entre as cordas, hoje assume um papel ativo no movimento SEMPRE PELO BOXE, que se apresenta como alternativa para a liderança da Federação Portuguesa de Boxe. Em entrevista exclusiva a FightNews, Jorge fala-nos das suas origens, do estado atual da modalidade e da sua visão para o futuro.
FightNews: Como e quando surgiu o seu primeiro contacto com o boxe? Foi amor à primeira vista ou um percurso que foi ganhando forma com o tempo?
Jorge “Gentleman” Silva: Não me lembro do primeiro combate que assisti. O meu padrinho, António “Tarzan” Pinheiro, foi pugilista, e eu, ele e o meu pai ficávamos até de madrugada a ver os combates de Las Vegas: as lendas Evander Holyfield, Mike Tyson, Lennox Lewis, Oscar de la Hoya, Fernando Vargas, Shane Mosley, Roy Jones, Félix Trinidad, entre tantos outros da época dourada do boxe mundial.
Isto criou, de forma intrínseca, uma paixão pelo boxe dentro de mim. Mais tarde, por volta dos 16 anos, fui a um ginásio fazer o primeiro treino, pela mão do meu tio Carlos Gandarela. E aí sim, foi para durar. Nunca mais parei até hoje — já lá vão 25 anos.
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FightNews: Quais foram os maiores obstáculos que enfrentou enquanto tentava profissionalizar-se e viver exclusivamente do boxe em Portugal?
Jorge “Gentleman” Silva: Tive muitos obstáculos, desde a minha própria falta de conhecimento sobre o que era ser profissional e o que era possível alcançar enquanto tal, passando pela falta de preparação dos treinadores, até à exploração por parte de alguns managers, entre outros.
A única coisa que fazia verdadeiramente como um profissional era treinar. Sempre treinei muito e procurei aprender cada vez mais, tanto em Portugal como no estrangeiro.
Isso permitiu-me construir uma carreira sólida, alcançar evolução e adquirir conhecimentos técnicos dos quais hoje me posso orgulhar.
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FightNews: O que mais mudou no boxe nacional desde os seus tempos de atleta até hoje? E o que ainda falta mudar?
Jorge “Gentleman” Silva: Os meus tempos de atleta ainda são muito recentes. Falta mudar o foco de quem trabalha no boxe e fazer perceber que o mais importante são os atletas e a própria modalidade. Enquanto estes não forem valorizados, estaremos a caminhar no sentido errado.
Tem de haver investimento para que, mais tarde, se possam colher os frutos. Em Portugal, pretende-se colher sem investir e obter resultados muito rápidos; por isso, muitas vezes, escolhem-se os caminhos mais curtos e fáceis. Mas, numa carreira verdadeira e sólida, não há atalhos.
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FightNews: Como vê o momento atual do boxe em Portugal, tanto ao nível competitivo como no desenvolvimento de novos atletas de alta performance?
Jorge “Gentleman” Silva: Portugal tem muita matéria-prima. Temos um potencial gigante em atletas e treinadores que, cada vez mais, procuram formar-se melhor. Acho que nos falta planeamento estratégico — começar a construir por baixo para, só depois, chegar à alta performance de forma consolidada.
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FightNews: O movimento SEMPRE PELO BOXE apresentou recentemente uma pré-candidatura à liderança da Federação Portuguesa de Boxe, da qual faz parte. O que motivou a criação deste movimento?
Jorge “Gentleman” Silva: O que nos motivou a criar o movimento SEMPRE PELO BOXE foi, exatamente, o que referi na resposta anterior: a falta de planeamento da atual federação. Querem construir a casa pelo telhado, o que é impossível. Para além de todas as irregularidades que têm vindo a ser cometidas, a federação precisa de pessoas da modalidade — que saibam o que é sofrer numa preparação, que saibam o que é subir a um ringue — e não de políticos que apenas sabem falar e tirar fotografias com pessoas importantes. O que é verdadeiramente importante é estar no terreno e perceber as necessidades dos atletas e dos treinadores.
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FightNews: Quais são os principais objetivos dessa candidatura? O que pretendem mudar concretamente?
Jorge “Gentleman” Silva: Nós pretendemos apresentar a realidade atual do boxe nacional, sem criar ilusões a ninguém, mas, por outro lado, traçar objetivos com o intuito de dar estrutura e equilíbrio à modalidade — onde os jovens vejam um futuro possível e se sintam apoiados pela federação que gere a sua modalidade; onde todos tenham voz e igualdade de direitos e opinião. Que o boxe seja de todos e para todos, e que, juntos, consigamos chegar onde nunca chegámos — e de lá não sair mais, a não ser para a frente.
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FightNews: Quais são as suas expectativas pessoais e profissionais para o futuro do boxe em Portugal?
Jorge “Gentleman” Silva: Como ex-pugilista, desistir não é opção. Temos um caminho difícil, longo, mas possível. Ver a dedicação dos nossos atletas e treinadores, e vê-los fazer tanto mesmo com as dificuldades que enfrentam, faz-me acreditar que, com uma estrutura forte, a longo prazo conseguiremos alcançar resultados de alto nível.
A nível pessoal, apoiar a modalidade, os atletas e os treinadores — seja num cargo federativo ou como ex-atleta — é o meu dever e o compromisso que assumo diariamente, contra tudo e contra todos, se necessário.
FightNews: Por fim, que mensagem gostaria de deixar à comunidade do boxe — atletas, treinadores, clubes e amantes da modalidade?
Jorge “Gentleman” Silva: A minha mensagem é simples: informem-se. Saibam o que se passa, perguntem, exijam provas e certezas. Não confiem cegamente. Já fomos enganados demasiadas vezes. Está na hora de tirar o boxe das mãos dos abutres e devolvê-lo a quem o ama e o vive. Com trabalho, orgulho e dedicação, vamos mostrar que tudo o que conquistámos foi por mérito próprio. Não precisamos de cunhas. Porque somos nobres. Somos A NOBRE ARTE.