Kickboxing THE KING
Diogo “The King” Calado: “Se queres ser lutador, luta!”
A motivação por trás da carreira de um dos maiores lutadores portugueses
03/04/2025 18h26 Atualizada há 1 ano
Por: Redação Fonte: Redação Fight News
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O mundo dos desportos de combate conhece bem o nome de Diogo Calado, um dos grandes representantes do Muay Thai e K1 em Portugal. Com uma carreira marcada por desafios, conquistas e uma dedicação inabalável, "The King" partilhou connosco a sua visão sobre a modalidade, os obstáculos da profissão e os valores que o desporto lhe trouxe.

O início no mundo da luta

FightNews: Como foi o teu primeiro contacto com os desportos de combate? Qual foi a modalidade que te despertou interesse?

Diogo Calado: Oficialmente, o meu primeiro contacto com os desportos de combate/artes marciais foi aos 7 anos, no Karaté. Não porque o Karaté, especificamente, me despertasse interesse, mas porque, desde cedo, os meus pais perceberam a minha inclinação para este tipo de desportos e, na altura, o Karaté era a opção mais próxima de casa. Não me perguntem o motivo do meu fascínio pelas artes marciais e pelos desportos de combate, mas sempre esteve presente em mim. Lembro-me de ser miúdo e passar a vida a querer brincar às lutas.

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FightNews: O que te motivou a seguir uma carreira no mundo da luta? Sempre soubeste que querias ser um atleta profissional?

Diogo Calado: Uma paixão inexplicável foi o que me motivou.

Como disse antes, era demasiado novo para conseguir compreender esta vontade de ser lutador, mas sempre soube que era isso que queria. Sonhava em competir nos maiores palcos, contra os melhores lutadores, e fiz tudo ao meu alcance para tornar esse sonho realidade.

Naquela época, o panorama dos desportos de combate era muito diferente. Não havia muito mais além do amor pelo desporto para te motivar a seguir este caminho.

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Os desafios de um lutador

FightNews: Quais foram os principais desafios que enfrentaste ao longo da tua jornada até te tornares um lutador profissional?

Diogo Calado: Sei que fica bem dizer que foi tudo muito difícil, mas, sinceramente, antes de me tornar profissional, não enfrentei grandes desafios. O meu pai e a minha mãe sempre me apoiaram a 200%, e até aos 18 anos o ginásio era perto de casa, por isso era tranquilo.

Quando me tornei profissional e saí do Dramático de Cascais para ir treinar no Vila Franquense, começou uma aventura diferente. Com 19 anos, ia todos os dias de comboio de Cascais para Vila Franca de Xira, a fugir ao pica, porque não havia dinheiro para o passe e tinha que me desenrascar. Treinava boxe uma vez por dia, em Cascais, com o grande José Fialho, e noutra sessão fazia Muay Thai com o Zé Fortes.

Na verdade, tive mais desafios a nível pessoal, enquanto criança e adolescente, do que no desporto propriamente dito.

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FightNews: Houve algum momento decisivo na tua carreira que te marcou especialmente?

Diogo Calado: Houve vários momentos marcantes. Partir a tíbia enquanto competia, aos 19 anos, foi um deles. Já tinha sido campeão mundial da IFMA com 17 anos, e muitos viam-me como uma promessa da modalidade. De repente, 90% das pessoas achavam que a minha carreira tinha acabado ali. Mas não! Voltei! E voltei mais forte! Disputei combates que muitos achavam que não devia, estando a regressar de uma lesão, mas ganhei-os. Isso até partir o maxilar um ano e meio depois. 

Foi numa luta contra o Paulo Telmo. No primeiro round, ele acertou-me um rotativo de calcanhar nos queixos que quase me atirou o maxilar para a bancada, mas continuei. Fizemos cinco rounds de três minutos. Ganhei a luta, 400€ e uma cirurgia. Foi um dos poucos momentos em que pensei que talvez ser lutador não fosse a coisa mais fixe do mundo.

Fora isso, o meu combate com o Yodsaenklai Fairtex, aos 23 anos, em Kard Chuek, mudou completamente a minha carreira. Passei de ser apenas mais um puto lutador na Tailândia para ser o Diogo Calado no mundo.

Outro momento — que, na verdade, foram dois — que me marcou bastante foi ter sido campeão do Enfusion na Suíça, contra a vontade da própria organização. Eles não queriam muito um campeão português no Enfusion. No segundo round dessa luta, contra o Llodra, parti a mão, mas dei KO no terceiro. Passado um mês, tinha um combate marcado em Portugal para um título europeu da WBC, numa gala da Dina. Escusado será dizer que, assim que cheguei a Portugal, fui ao hospital e disseram-me que tinha de ser operado de urgência. O que é que eu fiz? Marquei a operação para um mês depois… depois da luta pelo título. 

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Treinei um mês inteiro com a mão esquerda ao peito. Ganhei o título da WBC e, só depois, fui ser operado.

Para além de ter conquistado um cinto da WBC, que, claro, foi um marco importante, todos estes momentos de superação foram extremamente marcantes para mim. Provaram-me, a mim mesmo, do que sou capaz.

O cenário do desporto em Portugal

FightNews: Como vês a evolução dos desportos de combate em Portugal? Acreditas que o cenário está a melhorar para os atletas?

Diogo Calado: Acredito que o cenário está muito diferente! Com muitas coisas melhores e algumas piores.

Hoje, há visibilidade! E a visibilidade é rainha. Permite-te chegar mais facilmente aos lugares, permite-te ganhar mais dinheiro se fores inteligente, dá-te mais oportunidades, patrocínios, etc. Isso é bom e facilita a vida aos atletas. Mas a visibilidade também pode ser uma ilusão! E, se as ilusões não forem bem geridas, com algum tipo de estrutura que encaminhe os jovens, pode acabar por prejudicar o futuro dos desportos.

Hoje em dia, os miúdos já não sonham em ser lutadores para lutar. Eles sonham em ser lutadores para serem ricos, famosos, terem mulheres, carros e não sei quantos outros "luxos". Querem ser estrelas do rock! Mas isso é mentira, 99,9% das vezes. Eu lutei com os melhores, nos maiores eventos, ando num Citroën C3, só tenho uma mulher e ando a contar tostões para me safar. Falando de Kickboxing e Muay Thai, como é que hoje tens o triplo (ou mais) de praticantes e de competidores amadores, e não consegues fazer um torneio de 8 homens profissionais em nenhuma categoria de peso?

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Nem de 4 se calhar! (Há 10/15 anos faziam-se vários!) A percentagem de desistências da competição, agora, é abismal. Se tiveres um miúdo jeitoso que precisa de jogar, ou tens dinheiro para contratar alguém de fora, ou tens contactos, ou vais ter mais um "podia ter sido".

As desistências podem ser uma consequência social e geracional, mas se as coisas não forem bem feitas ao nível das federações, hoje isto está na moda e há pessoas sem fim, amanhã vai estar na moda outra coisa qualquer e já não tens praticantes, e muito menos competidores. Porque esses já não os tinhas. Tinhas amadores, mas muitos desses amadores vêm com as modas e saem com as modas também.

Os profissionais são as referências que fazem com que os miúdos queiram ser amadores. Se não existirem profissionais, como é que é? Isso também vai refletir-se na qualidade dos treinadores daqui a 10 anos, caso não haja mudanças. Não sei se respondi, mas acho que dá para perceber. Está melhor e pior.

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FightNews: O que achas que ainda falta para que os desportos de combate tenham maior reconhecimento e apoio no país?

Diogo Calado: Acho que falta uma cultura desportiva! E isso é muito difícil de mudar e leva muito tempo. É uma questão educacional. Em Portugal, o desporto é o Futebol. Mas não nos podemos queixar. Hoje em dia, ser lutador é fixe, graças ao UFC e à visibilidade que trouxe. Há desportos que estão muito piores do que nós nesse aspeto. E mesmo assim, há muita gente que acha que os lutadores do UFC são todos ricos e têm patrocínios. Eu vivi 3 meses com alguns deles, e "ninguém" que está a ler isto se sujeitava a viver 1 dia naquelas condições. Eu vivi lá 3 meses. Eles vivem lá. Sempre!

Falta muita força de vontade e capacidade de trabalho à maioria das pessoas. A malta tem que se fazer à luta, tem que se sujeitar e lutar pelo que gosta. Se tiveres apoios, fixe! Se não tiveres, vais desistir? Claro que há formas de trabalhar mais propícias a conseguires apoios, seja como clube, atleta ou Federação.

Mas não sou marketeer para poder ensinar isso. Os apoios que tive foram sempre graças aos meus resultados e por ter muita gente que gosta de mim.

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Lições do desporto e mensagem para os futuros lutadores

FightNews: Que valores os desportos de combate trouxeram para a tua vida, tanto dentro como fora dos ringues e tatames?

Diogo Calado: Capacidade de superação e o entendimento de que, se realmente quiser alcançar algo de valor, tenho muito trabalho pela frente, mas consigo, desde que não desista. Se não conseguir, o conhecimento que adquiri ao tentar nunca se desperdiça. O esforço traz recompensas, nem que seja em aprendizagens. Quem nunca praticou desportos de combate tem dificuldade em compreender o quão bons professores para a vida são.

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FightNews: Que conselho darias aos jovens talentos que estão a começar e sonham em construir uma carreira nos desportos de combate?

Diogo Calado: Não desistam! Se realmente querem, não desistam. Se o vosso objetivo for ser lutadores, lutem ao máximo e divirtam-se a fazê-lo. Se o vosso objetivo for ser ricos e famosos, podem tentar, mas têm maior probabilidade de o conseguir noutras profissões. 

A única coisa que vos impede de construir uma carreira como lutador é o facto de não lutarem. Se querem ser lutadores, lutem.

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Agradecimento aos que apoiam a caminhada

FightNews: Por fim, que mensagem gostarias de deixar a todas as pessoas que te apoiaram e continuam a apoiar ao longo da tua carreira?

Diogo Calado: Gosto muito de vocês! Vocês sabem disso, não é preciso fazer grandes testamentos. Mas fica bem aquele obrigado, porque sem vocês nada seria igual. Tenho muita sorte em ter a vossa ajuda."