O ano de 2024 foi marcante para o Karaté português, especialmente na disciplina de Kata, com conquistas históricas e a consolidação da modalidade a nível internacional. Para compreender melhor este percurso de sucesso, conversámos com o Selecionador Nacional de Kata, Jorge Peixeiro, que partilhou a sua visão sobre os desafios enfrentados, os momentos mais marcantes e as ambições para o futuro.
FightNews: Como avalia o desempenho da Seleção Nacional de Karaté na temporada de 2024?
Jorge Peixeiro: Considero que 2024 foi um ano em que se quebraram várias barreiras e se cimentou a qualidade do “Kata” português. Em Cadetes, Juniores e Sub-21, iniciámos o ano com 3 medalhas no Campeonato da Europa e terminámos com mais 3 no Campeonato do Mundo, onde disputámos uma final de Kata pela primeira vez na história de Portugal, com a equipa de Kata masculina. Nos Seniores, mais uma vez fizemos história ao disputar o bronze em Kata individual masculino e conseguimos a primeira medalha de Portugal num Campeonato do Mundo deste escalão (tanto em Kata como em Kumite) com o título de Vice-Campeãs do Mundo na disciplina de Kata Equipa Feminina. Resumindo, considero que 2024 foi um ano histórico para a Seleção Nacional, onde aprendemos com os momentos menos positivos e soubemos impulsionar os atletas para momentos fantásticos.
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FightNews: Quais foram os principais destaques e momentos mais marcantes do ano passado?
Jorge Peixeiro: Face à dimensão do feito e a todo o mediatismo da prova, o momento que mais me marcou foi a vitória contra a seleção de Itália na meia-final do Campeonato do Mundo Sênior, que nos garantiu uma medalha na prova. Estávamos conscientes do desafio que tínhamos pela frente, mas sempre acreditámos que seria possível chegar à final do Campeonato do Mundo. Já na final, apesar de nunca termos baixado os braços e de termos realizado um trabalho exemplar, sabíamos que vencer a poderosa seleção do Japão seria muito complicado. Toda a prova foi envolta num sentimento especial, onde, desde o momento em que iniciámos a viagem para Pamplona, tomei uma consciência inabalável de que os astros estavam alinhados.
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Para esta conquista, contribuiu uma federação que nos apoiou desde o dia em que soubemos que estávamos apurados. O nosso psicólogo (Dr. Nuno Cardoso), que pacientemente limou arestas, e o terapeuta (Omid Bahrami), que manteve as “máquinas” afinadas até ao último momento. O presidente da federação (Carlos Silva) e os diretores da federação (Joaquim Gonçalves e Paulo Julião), que tudo fizeram para que nada faltasse a este grupo de trabalho. As super atletas (Ana Cruz, Beatriz Portal, Maísa Caridade e Natacha Fernandes), que foram incríveis na sua entrega, não só na prova, mas também na sua preparação. Os nossos clubes, GMD Manique de Baixo e Tokui Dojo, os nossos familiares e os que se deslocaram a Pamplona para nos apoiar. Todos aqueles que, ainda que à distância, nos fizeram chegar a sua energia e crença através das redes sociais. Tudo conjugado fez de nós uma equipa extraordinária, que teve prestações do outro mundo e colocou em sentido algumas das maiores potências do karate mundial. Aproveito para agradecer a todos o vosso precioso contributo.
FightNews: Houve algum desafio específico que a equipa enfrentou em 2024? Como lidaram com isso?
Jorge Peixeiro: A equipa feminina sênior veio do Campeonato da Europa com um resultado muito aquém do que ambicionávamos, e isso deixou-nos na incerteza quanto à concretização do apuramento para o Campeonato do Mundo. Após a confirmação de que Portugal teria um lugar nesta prova, o trabalho ganhou um objetivo concreto: apresentar uma equipa competitiva entre as melhores seleções do mundo. O maior desafio foi saber gerir a motivação e os objetivos dos quatro elementos da equipa e conseguir convergi-los para um aumento de intensidade e presença nas suas apresentações, mantendo-as disponíveis a nível físico e psicológico para enfrentar todos os desafios que se aproximavam.
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FightNews: Quais são as suas expectativas para a temporada de 2025?
Jorge Peixeiro: De uma forma geral, considero que os resultados aparecem com trabalho. A seleção deve continuar a potenciar os nossos atletas para que as prestações desportivas de excelência continuem a surgir e para que haja manutenção, ou quem sabe melhoria, dos resultados concretos, sabendo que a fasquia está muito alta neste momento. Considero que ainda há muito por fazer para dar mais condições a atletas, treinadores, terapeutas, dirigentes, etc., mas que a federação está no bom caminho e tem feito um esforço elevado para o conseguir.
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FightNews: Na sua visão, em quais aspetos a equipa precisa evoluir para alcançar melhores resultados este ano?
Jorge Peixeiro: No que diz respeito à equipa feminina de Kata, considero que deverá haver uma maior consciência dos nossos objetivos para que cada atleta se identifique com eles e contribua para um sentimento de concretização. Esta responsabilidade terá de estar presente em todos os treinos, de forma a criar pequenas metas até à concretização do objetivo final. Teremos um grande desafio em nos apresentarmos, mais uma vez, competitivos no Campeonato da Europa, e tudo está a ser feito para o conseguirmos atingir.
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FightNews: Quais são as principais competições no horizonte para a Seleção Nacional este ano?
Jorge Peixeiro: Em contexto de Seleção Nacional, existem duas provas do escalão sênior por realizar este ano: o 60.º Campeonato da Europa, que se realizará na Arménia e onde a seleção participará em individual e equipa, e o Campeonato do Mundo Individual, que, pela primeira vez, se realizará num contexto de apuramento. Nesse sentido, os atletas terão a possibilidade de se qualificar através de quatro formas distintas: resultado no Campeonato da Europa, ranking específico, torneio de qualificação e vaga universal. Mediante estes critérios, na disciplina de Kata, temos a ambição e o objetivo de apurar dois atletas para esta competição, um masculino e um feminino.
FightNews: Quais são os principais desafios em liderar e treinar a equipa feminina de Portugal?
Jorge Peixeiro: O meu maior desafio é sem dúvida nenhuma conseguir que as quatros atletas se sintam igualmente comprometidas com o trabalho. Esta equipa tem uma grande vantagem em treinar junta, mas existem momentos de pressão social que têm de ser muito bem geridos. Todas elas têm os seus objetivos individuais, no entanto o compromisso para com a equipa, muitas vezes surge em primeiro lugar. Só assim conseguiremos atingir os grandes desafios a que nos propomos.
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FightNews: Como tem sido o crescimento e desenvolvimento do karaté feminino no país e o que ainda precisa ser melhorado?
1. Jorge Peixeiro: Portugal tem tido grandes atletas femininas na disciplina de Kata, que vêm a conquistar medalhas internacionais desde 2009. Sou da opinião que atualmente no Escalão Sénior, os femininos estão mais competitivos numa perspetiva global e em contexto internacional, enquanto nos escalões de Cadetes, Juniores e Sub21 existe um maior equilíbrio entre géneros. Julgo que existem alguns detalhes psicológicos/sociais que deverão ser considerados de forma diferente quando lidamos com atletas Femininos e Masculinos, mas que de uma forma geral o trabalho é muito idêntico. Como componentes a melhorar, destaco as seguintes: 1. Aumentar volume e qualidade no treino desportivo; 2. Formar treinadores com melhor enquadramento desportivo no contexto internacional; 3. Aumentar os apoios financeiros para potenciar condições de treino e de competição internacional.
FightNews: Por fim, que mensagem gostaria de deixar para os apoiadores e fãs da Seleção Nacional de Karaté?
Jorge Peixeiro: Devemos levar muito a sério o slogan da Federação: “juntos somos mais fortes”. Todos os agentes desportivos deverão sentir-se envolvidos no movimento das Seleções Nacionais, promovendo e ajudando no crescimento desportivo de Portugal. Adicionalmente, considero que a Seleção Nacional não pode ser vista pelo universo Karateca como algo muito positivo quando nela estamos envolvidos, e muito negativo quando dela estamos afastados. Numa modalidade como a nossa, parca em recursos e onde necessitamos do apoio de todos, deve ser visto com muita responsabilidade a formação de atletas com ambição de representar a nossa Bandeira, mas acima de tudo que levem na sua bagagem todos os valores do Desporto e da nossa Arte Marcial. Defendo que não devemos encarar uma chamada à seleção como um objetivo final, pois para os que têm o mérito de o conseguir, o desafio apenas está a começar.
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